
- Valeu a pena?
Pausa. O Silvino encara, um a um, todos os que estão no bar. Cenho franzido, olhando por cima. Satisfeito por finalmente olhar assim. Por cima. Importante. Afinal, está no palco, empoleirado num banquinho quase maior que ele. O lábio inferior empurra o superior, que empina o nariz. Silêncio total.
Não. Quase total. Alguém funga (alguém sempre funga). Slurff! E insiste, slurff, slurff. Sem se afetar, Silvino balança a cabeça e abre um leve sorriso. O suficiente para que se perceba uma salsinha no canino direito.
- Tudo vale a pena...
Voz impostada. Suspira.
- Se...
Tinha caprichado nas sílabas tônicas. No 'se', a voz subitamente declina. Quase sussurra. Faz outra pausa. E se concentra apenas em Déia, que se encolhe atrás de um chope. Duas fungadas e um pigarro entendem, ó, tem clima. Murmúrios crescem. Vai jogar na cara dela, ah se vai! Alguém não se agüenta e estala os dedos, chamando o garçom. 'Bem gelada!', grita. Pssiu!, não é a final da copa! O Silvino nem aí. Nada o abala naquele instante. Aperta o olho. Endurece a face. Ensaia um esgar mitológico. Só se vê a franja de Déia acima da mesa. E escorregando. Ele balança a cabeça ainda com mais veemência, imitando o gesto da mãe quando o surpreendia cheirando as calcinhas de sua tia-avó. O nariz já forma um ângulo reto com telhado. Precisa ser enfático. Humilhar. Despedaçar. Pisar, matar, ressuscitar. E qualquer outro verbo ou metáfora que torne Déia a última das últimas.
Morde as sílabas, mastiga, faz gargarejo e solta. Uma por vez. Pesado, calmo, sentencioso.
- A al-ma...
- AAH!
Opa! Opa!, grita outro alguém. Alvoroço. O grito se repete atravessando Fernando Pessoa e ninguém entende onde a alma do poeta vai parar. Psst!, psiu!, xi!, pede a platéia, irritada. O Silvino leva um susto e quase cai do banquinho - que, mesmo sendo maior que ele, ainda assim é só um banquinho. Déia ressurge sobre a mesa, ainda apenas em meio rosto, cautelosa, querendo saber o que aconteceu. Será que alguém leu seus pensamentos e cortou a garganta - ou o pinto, seria melhor o pinto - daquele desgraçado?
O grito se repete, AH!, e se prolonga, AAAH! MÃNHÊEE! A platéia procura com os olhos a interferência que estraçalhou o clímax da poesia. Silvino tenta se recuperar, suando frio, equilibrando o corpo para não decretar de vez a morte do recital. Olha no fundo o bar. Já sabe quem foi.
O filho da Jô. Queria pastel. A mãe mandou esperar, ele insistiu, choramingou, esperneou. Queria, queria, queria. Ela irredutível, não!, ele, eu quero!, não!, quero!, não!, não!, quero!, quero! Beliscão e grito. Aquele grito. Agora, o eco e o sorriso amarelo da Jô, localizada por todos os olhares.
- Eu não tinha com quem deixar. - ela se explicou, aflita.
Cabeças balançando em desaprovação. O Silvino balançando os braços, querendo atenção, mas sem falar, não queria interromper a seqüência poética. O menino nem aí para a coreografia desesperada da mãe, dedos nos lábios, implorando silêncio pelo amor de deus. Queria pastel. Queria, queria, queria!
Silvino tenta se impor, esbravejando no microfone. Azar que repetisse.
- A ALMA! A ALMA!
Nada. Ninguém olha para ele. Nem a Déia, agora já sentada normalmente e pedindo outro chope. Atenta. Andava pensando em ser mãe, tipo assim, uma produção independente. Mas todas as criança eram daquele jeito? A platéia ouvia atentamente a Jô, palestrando ao filho sobre carboidratos, circulação sangüínea, males da fritura e porquê a Amazônia não pode ser internacionalizada. Prometendo chegar em casa e fazer uma saladinha bem gostosa. De chuchu.
Mais grito.
- Eu quero pastel!
E choro. Apavorada, a Jô tenta calar o filho até com guardanapo amassado. Silvino bufando, isso é coisa que se faça com Pessoa? Ultrajante, ultrajante! Seus néscios! O Décio ouve e manda ele calar a boca. Irritado, tenta descer do banquinho maior que ele, o pé comido de cupim não agüenta e o Silvino dá de nariz no palco em meio segundo. O estrondo repercute na caixa de som, gerando uma microfonia que faz a platéia levar as mãos aos ouvidos.
- Psst! - fizeram pra ele.
- A alma! A alma! - Silvino tentou dizer, enquanto se erguia com dificuldade, tentando localizar a Déia e fazer o olhar de humilhação ensaiado. O problema era a dor no nariz.
- Tudo vale a pena! - insistiu, dedo em riste. Voou uma garrafa de cerveja e ele desabou de vez.
- Dá pastel para o menino, Jô! - gritou alguém.
- Pode dar! Eu pago!
- Eu pago outro!
A Jô parou a explicação que já andava por gametas, haplóides, espermatozóides e a importância da camisinha. Ia dizer, ele não pode comer essas coisas, tem apenas cinco anos. O menino esperneou. Gritou mais ainda. Aplausos.
- Diz pra ele declamar!
- Diz, diz!
A Jô já ia dizer que não ia dizer coisa nenhuma, é só uma criança, pô, mal sabe música de rodinha. Mas quando se deu conta, o filho estava no palco, empoleirado sobre o corpo inerte do Silvino. E pedindo um pastel para cada verso dito como couvert artístico.
- Senão eu choro! - ameaçou.
- Paste! Pastel! - Gritou a platéia.
O menino pigarreou. Silvino se mexeu quase acordando, mas outra garrafa manteve-o prudentemente imóvel. Silêncio total. Quase total. A Jô mascava as unhas, desesperada, resmungando, pastel tem muita caloria, ele não pode comer! E calculou quantos pastéis dariam "batatinha quando nasce" ou "lá de trás daquele morro". Ele não iria conseguir. E um carboidratinho aqui, outro ali, o que é que tem?
Quase teve um tróço. Ouviu o filho dizer todos os quinze mil versos hexâmetros e os vinte e quatro cantos da Ilíada, de Homero. 'Óh!', fez a platéia, já na cólera da Aquiles. E por quatro horas ininterruptas, houve uma sucessão de 'óhs', suspiros, chamadas ao garçom e traques. Até que, rouco e com câimbras, o menino encerrou, recebendo a ovação da platéia eufórica.
Silvino, já reconciliado com Déia, estava em seu colo, entre tentativas de continuar o verso do Pessoa e curar as garrafadas na cabeça. O filho da Jô pediu que cessassem as palmas.
- Tá. Agora, meus pastéis! – e foi para a sua mesa.
Mais aplausos e vivas. Assovios. Então o garçom subiu ao palco e veio solene até o microfone. Pigarreou. Expectativa. 'Viva o improvável!', gritou alguém. Delírio. Que noite, que noite, resmungou um modernista ou coisa parecida. Dinheiro surgindo nas mãos da platéia. 'Pastel! Pastel! Pastel!'.
- Vocês... Todos!.. Vão para o céu!
Um coro de mais e mais 'óhs' tomou conta do bar. Uma nova garrafada desmaiou definitivamente o Silvino bem no instante em que ele lembrou que a alma não era pequena. Nem as garrafas que o acertaram.
O garçom encarou a platéia. Um por um. E parou na Jô.
- Mas aqui... Não servimos pastel.
Silêncio total.