Criaturas Crônicas

Crônicas e artigos publicados pelo escritor Oscar Bessi Filho.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Livro novo vem aí!

Lançamento de
Marx não foi à Praia
crônicas de humor - Oscar Bessi Filho

dia 03/10 - Feira do Livro de Montenegro
19h na Estação da Cultura


Domingo, Setembro 13, 2009

Amor

Jornal Ibiá, 10 de setembro de 2009.

Relacionamentos são complexos. E interessantes. O ser humano tem diversas formas de manifestar sentimentos parecidos. O amor, por exemplo. Existem diversos tipos de amor. Quando encontrar o seu par, ou achar que encontrou - isto é sempre tão relativo quanto a umidade do ar -, cabe pedir ajuda para ver onde este amor se enquadra. Procure o seu guru, ou o cupido da história - tem que correr, eles sempre fogem depois da flechada e antes do testemunho oficial -, seu terapeuta, o cardiologista ou um agiota. Tanto faz. Isto pode salvar vidas e contas bancárias. Ou, pelo menos, poupar esparadrapos.

O problema é saber qual amor dá segurança. Que há tipos complicados. Outros, já são mais maleáveis. O amor gremista, por exemplo. Fiel. Não faz nada fora de casa. Ou o amor Rubinho, cuja felicidade é ver o outro sempre em primeiro lugar. Tem o amor bolsa família, que o mês todo nem te vê, mas te dá uns trocados e se dá por satisfeito. O amor Sarney, que só pensa na família. Como pensa. Compensa. E o amor Barack Obama. No início, surpreendente. Em seguida, se revela igual aos outros.

Existem aqueles casos mais intrincados. Como o amor crack. Se entra, não consegue sair. Nem querendo. Destrói sua vida e a dos outros. Acaba na delegacia, no hospital ou cemitério. Ou tudo junto. E o amor gripe suína. Deu mole, te pegou. O amor Yeda. Diz que ama, mas bate. E amor Dunga. No início, ninguém quer. Mas ele sempre vence. Até na Argentina.

Há outros. Como o amor pagodão, feito em grupo. Amor tecnoplatônico, via internet. Amor tatu, toda hora no buraco, e amor pazinha de sorvete, que não para de se meter em fria. O amor papel higiênico - quando não anda enrolado, está na m. E o amor pereba, onde o que importa mesmo é a pele. Aí vem amor bergamota ponkan, só casca, amor agulha, que deixa furo, amor febre, só na cama, amor pipoca doce, amor chuchu, geléia, rebimboca da parafuseta e por aí vai. Até amor novo acordo ortográfico tem. Enfim. Tudo é amor.

Os homens só não entendem um. O que, dizem, o cara lá em cima tanto fala e até tentou implantar. Mas perdeu audiência para a novela das oito, que tem outros conceitos. Seria o tal do amor de verdade. Alguém aí sabe que bicho é esse?

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Gremista ou Colorado

Jornal Ibiá, 03/09/09

Deus é brasileiro. Ponto. Só a prudência divina para nos dar a Amazônia e Copacabana numa tacada só. De quebra, Elis Regina, cinco copas do mundo e Juliana Paes num comercial de chope. Embora a gente estrague tudo com desmatamento e arrastão. Novela indiana e Calypso. Faz parte. Mas que Deus é brasileiro, é. Eu já sabia. Não tem pra ninguém. Mesmo com Brasília no meio do mapa. E da máfia. Aha, uhu, o Criador é nosso.

E brasileiro que se preze tem uma segunda religião. O futebol. Deus deve ter time. Não carioca, que o Rio tá um inferno. Paulistas já têm ajuda da arbitragem e da mídia - a divina dispensaram. Boas chances d’Ele ser gaúcho. Com Madame Y e tudo. Deus é assim. Testa nossa fé.

Gremista ou colorado? Ele não revela. Mas dá pistas. O céu é azul. E a gente olha para cima, ao rezar. Mesmo sabendo que Ele está no meio de nós etc. Ponto gremista. Aí vem a ciência - sempre ela - e diz, pura ilusão de ótica. Azul? Nada, é um buraco negro sem fim. Por dedução, o Grêmio seria algo do tipo. Chega perto, não tem time. Ou, joga fora, puf. Ponto colorado. Pelo céu e pelo sangue. Que é vermelho. Sem sangue, deu pro sujeito. Tá, sangue nobre é azul. Mas é melhor nem entrar nessas discussões de classe.

O semáforo. Um estudo teria definido ser o alto lugar colorado. Testaram azul no pare, ninguém respeitou. Um caos. O êxtase ante a cor rubra seria gesto humano instintivo. Cabe lembrar, o vermelho já tirou do sério muito touro e investidor da bolsa. Além de que todo gremista mostra o planeta com orgulho. Ó, azulão. Ainda que ambientalistas cortem o barato, é por pouco tempo. Vai virar vermelho. De chamas ou de raiva. Aliás, não entendo porque sentimento - e saldo bancário - negativo tem cor rubra. Igual estratégia militar: é o inimigo. Não dos chavistas, claro. Já os chineses andam meio confusos. Nem nosso presidente é mais tão vermelho assim. É corintiano. Ele, a Globo e bandeirinhas em geral. E nem ficam vermelhos. Falando nisso, e o diabo? Que é senador, eu sei. Duro é saber de que time. Depende do que está em jogo. Ou de quanto. Mas é sempre contra nós. Colorados, gremistas, brancos ou nulos. Já contra os corintianos, ah. Eu não apostaria.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Chato

Jornal Ibiá, 27/08/09.

Coisa mais chata é ter que se livrar de um chato. Dureza. Estamos na rua, com pressa, não temos para onde fugir e ele aparece. Sorrisão anunciando que fomos premiados, é ele mesmo. Mala e cuia. Muito mais mala. Falando do que ninguém aguenta mais ouvir, mas precisa seu veredicto. Aos gritos. E pegando no braço da gente. Que chato é assim, já vai pegando no braço. Nada de só a mão. Ou a paciência. Chato é chato. O tempo é todo dele. O tempo, o vento e a vida alheia. A gente disfarça, pigarreia, resmunga microssílabos, ah, hum, ô. Faz cara de quem comeu rabanete com mumu. Nada. O sujeito fica ali. Sem se flagrar. Chato, que é chato, ou nem sonha que é, ou faz questão de chatear.

Alguém lançou dicas de como se livrar deles. Inúteis. Fingir que atende o celular, por exemplo. Chato nem dá bola. Conversa junto com o telefone. Para ele, temos uns dez ouvidos. Se facilitar, diz até alô pra gente. Ou tenta um triálogo, tipo, é o Zé?, hein, o Zé?, diz que eu tô esperando aquela costela. E grita, perto do celular, que está perto do teu ouvido, que está na tua cabeça que já começa a doer, ô Zé!, cadê minha costela? E dá gargalhada. Que todo chato se acha um Jô Soares. Engraçadíssimo. Genial. Um privilégio, estarmos com ele.

Fingir que não viu e seguir reto, só se existisse a invisibilidade. Que ele sempre vê. E vem. Nem adianta cumprimentá-lo sem parar de caminhar. Ele vai junto. Mesmo indo para o lado oposto, com hora marcada e atrasado, ele vai. É capaz de ficar na fila do banco com a gente. Teorizando. Gritando. E agarrando no braço. Aí deu. Só se ele achar um novo alvo.

Já tentei a nova técnica da gripe suína. O chato veio e nem deixei que me cumprimentasse. Tossi. Perguntei se ele sabia onde comprar máscara. Essa gripe, eu disse. Um perigo. Só de conversar, pegou. E pensei, agora ele sai correndo. Pff. O tipo soltou uma gargalhada. Gritou, para o centro inteiro ouvir, que ele era forte. Imune. Sem frescura. Aí, agarrou o meu braço. Gritou no meu ouvido. E discursou sobre Sarney, praça, Yeda e com quantos espirros se faz um tamiflu. Só faltou filosofar sobre o Grêmio fora de casa. Que chato é assim. Entende de tudo. Até o que ninguém consegue entender.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Briga de Vizinhos

Jornal Ibiá, Coluna Semanal, 20 de agosto de 2009.

Tem gente que gosta disso. Baixaria. Ouve uns gritos e já corre para ver o que é. Não quer perder um detalhe. E, quanto mais palavrão e porrada, melhor. Fica inclusive decepcionado se o fuzuê termina. É capaz de meter uma provocação só para não deixar que agito acabe. Somos assim, sádicos. Debate sem político se engalfinhando é morno. Postinho sem algazarra não rola. Nós, os homo sapiens. Metade homo badernus, metade homo fofocus. Gostamos de circo. Se ele pegar fogo. Aí, tiramos foto e colocamos no orkut. Em briga de marido e mulher, chegamos bem perto e alcançamos a colher. O importante é ter o que falar.
No Reino da Bizarreia, estão ficando craques em baixaria. A mídia deitou e rolou com bate-boca no Senado, faniquitos palacianos e gravações a mil. Até que, na última semana, decidiu ela própria ter seus ataques de histeria. As duas maiores redes de televisão do Reino resumiram seus noticiários em ataques, contra-ataques e peripaques diários. Bispo que rouba de cá, aliado da ditadura que já roubou de lá, e por aí vai. Infelizmente, com isso os dois ainda ganham audiência. É uma novela. Todos querem saber a próxima maracutaia que o outro revelará, na voz de seus locutores galãs fingindo indiferença ou estardalhaço. Por um lado, é bom. A vantagem de dois gigantes se engalfinharem é ver como eles jogam, um na cara do outro, suas maracutaias antes compartilhadas. Os detalhes sórdidos e sátiros. Ainda mais quando aliados - caso do Senado - ou achacadores, de jeito muito parecido, da mesma cumbuca - a grande mídia. Igual briga de vizinhos. Um sabe o podre do outro. Da hora em que o arroz queimou até o gato na luz de vinte anos atrás. Além daquela noite dormida na varanda. O melhor era ficar quieto.
Porém, há solução. Por mais que a demência seja parte de nossa natureza esquisita (sim, somos seres esquisitos, fazemos dieta, ouvimos Calypso e ainda torcemos para o Grêmio - eu, no caso, só faço dieta). Nós, aqui, temos a TV Cultura. Então digamos não às tevês da Bizarreia. Só vamos assistir TV Cultura. O dia todo. À noite também. Nada de Juliana Paes ou Ana Hickmann. Troquemos as duas pelo Leandro Utzig. Que tal?

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Polícia para quem precisa

Jornal Ibiá, 13 de agosto de 2009.
Coluna semanal.


Responda rápido. Quem rouba mais? Quem mete mais a mão no bolso do cidadão, um assaltante armado ou um gestor público corrupto? Difícil, esta. O que é pior, perder os últimos trocados da carteira, ou o filho, jogado no corredor de um hospital público, sem atendimento? Qual a diferença entre bandidos que se reúnem para sugar os cofres públicos e os traficantes que se entrincheiram na favela? Quem destrói mais a nossa juventude? Que diferença moral há entre uma licitação fradulenta e o assalto a banco? Canetas ou fuzis? Quem, de verdade, faz o crime organizado neste país?

No Rio, aplaude-se uma ocupação policial intensa - e de fato necessária - numa favela do Realengo. Junto a esta ocupação, finalmente descobriram que é necessário investir na presença do Estado naquelas localidades. Sáude, habitação, esgoto, educação e por aí vai. Não adianta mandar só a polícia fazer guerra na periferia. Tem que dar cidadania. Oportunidade, caminho e perspectiva. Auto-estima. Mas a humanidade é assim. Demora para ver o óbvio. Levou milênios para desconfiar que a terra é redonda, então, para se tocar que dinheiro público é do povo, talvez demore muito mais.

Bela política de segurança pública, dizem alguns. Talvez. Mas tem mais mosca nessa sopa. Não é só favela que precisa ser ocupada pela polícia. Tem palácio e condomínio de luxo carecendo de uma ação vigorosa em defesa da sociedade. Quando se prende pobre, multa pobre, caça pobre, aplausos. Agora, quero ver confiscar a cumbuca dos donos do poder. Aí a vaca vai pro brejo. E a ratazana também. Fim da polícia bacana. Valorosa. Comunitária. Vem ministro, governadora, senador, deputado e comentarista da perna cruzada dizer que policial só quer aparecer. O Ministério Público quer dar show. Que, ah, não precisa prender, nem algemar, nem mostrar para a população, ó, estes são os que roubam vocês. Ladrão de galinha, tudo bem. Pode mostrar o tipo escabelado, faminto, pisoteado pelo sistema. E chamá-lo lo de meliante. Homens de terno e gravata importada não. Esses merecem respeito. Mesmo que não respeitem nem a mãe deles. Enfim, algema em pulso de miserável é eficiência. Em pulso de ouro, é abuso.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

São Pedro e as Toupeiras

Jornal Ibiá, edição de quinta-feira, 30 de julho de 2008.
Processar se tornou um bom negócio. E uma arma. Sujeito está em casa, cansado do Leandro Utzig na tevê, decide: está na hora de ganhar um dinheiro fácil. Então processa. Quem o chamou pelo apelido, o vizinho que confirmou seu nome pro carteiro, o cão que fez xixi no jardim ou todo o time do Internacional enquanto consumidor. Fácil. Há, também, quem precise ameaçar, afastar, tentar encobrir ou fazer calar, aí esbraveja, eu processo! Não me conserto e não encaro, mas processo. Virou moda. Assim como repassar culpa. Outra moda. A praça está destruída? Coisa dos pombos. Ah, nem os pombos iam mais lá? Então foram as toupeiras. As toupeiras vez em quando invadem as praças. E destróem pombo, praça, tudo. Se não cuidar, acabam com a cidade inteira. Toupeiras são terríveis!

Dia desses, um jornal eletrônico de notícias ímpares noticiou que um prefeito, por aí, decidiu processar São Pedro. Tanta chuva, tanto prejuízo em sua cidade, o que o homem lá em cima estava pensando? Que ele ia pagar a conta sozinho? Com essa carga tributária tão ínfima, que mal dá para quitar os favores de campanha? Alagamentos, enchentes, ruas interditadas, casas destruídas, gente sem ter para onde ir, tudo isso só no dele? De mais a mais, havia um decreto na cidade proibindo chover mais que o permitido. São Pedro não leu? Aquele caos não era culpa dele, não era mesmo. Processou.

Fiquei imaginando o caso. Abuso de autoridade? Favorecimento? Desvio público de tormentas? Alguma ligação com o Sarney? Não sei onde enquadrariam o santo. A defesa alegaria estrito cumprimento do dever legal - mandar chuva sobre os mortais - e traria São Jorge como testemunha, aproveitando as comemorações da chegada do homem à lua. Pobre é da Promotoria. Eu ficaria com medo de, depois, ser dispensado para o andar de baixo, sem argumentos. Se bem que, se fosse por medo de represália, não havia mais Promotor. E São Pedro, é claro, não viria para o julgamento. Seria condenado à revelia. Rá! Aí que eu quero ver. Quem vai buscá-lo lá em cima? Quem?

Toupeiras, talvez. Toupeiras sempre se metem onde não são chamadas. Ruim é que nós, sempre nós, é que pagamos o preço dos rombos que elas deixam.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Paranoias

Jornal Ibiá, quinta-feira, 23 de julho de 2009
Não adianta. A humanidade é paranoica. Ou hipocondríaca. Ou muito esperta, nalguns casos. Mas só nalguns casos. Que tirar proveito de tudo, ô, não é para qualquer mortal. Tem que ter talento. Praticar isto diariamente, feito exercício físico. Assim são os ladrões. Os corruptos. Os vendedores de terreno no céu e os roteiristas de novela. Vivem disso. Aliás, li a manchete de um jornal, trinta anos atrás. Movimento declara guerra à corrupção no Brasil. Ah. Deve ter sido uma guerra injusta, pelo jeito que a coisa anda. Os adversários devem ter usado armas químicas, ou biológicas. Ou psicológicas. Só sei que se deram bem. Trinta anos e aqui estamos. Desse jeito. Em 1979, lembro, eu era uma criança feliz. Cheguei em Montenegro, meu time foi campeão nacional e o General Figueiredo era apenas um senhor simpático que andava a cavalo. Eu acreditava em disco-voador e que o Monstro do Lago Ness existia. Guerra contra a corrupção? Não lembro. Acho que não dei bola. Afinal, para histórias da carochinha eu já estava bem grandinho.

Os espertos são assim. Percebem nossa paranoia, nossa fácil histeria coletiva, nossa sede íntima de uma boa desculpa. É. Para não ir trabalhar, para não ser tão honesto, para colar na prova de matemática e cruzar o sinal vermelho. O que queremos é uma boa desculpa. Ou várias boas desculpas. A bola da vez é a gripe suína. Para explicar a saúde pública caótica, as emergências lotadas e, pasmem, cogitar a volta da CPMF. Não sei como não colocaram nela a culpa pela morte do Michael Jackson. E da zaga do Inter. Pobres suínos. Entre eles, devem pensar que a doença humana fez muito pior, mas ficam frios. E viram frios, também. Que a doença humana é o que mata mais neste mundo. O homem mata os outros. Mata o planeta. O homem mata o homem, quando não tem mais o que fazer. Mas, com raras exceções, não fica histérico nem horrorizado com a sua própria presença.

Máscaras, eis a saída. Mascarar sempre foi a solução e trouxe a humanidade até o terceiro milênio. Vou comprar uma máscara, também. Para assistir o noticiário. Quem sabe assim escapo do contágio do senador. Que, confesso, neste caso ainda sou meio paranoico.

Sábado, Julho 18, 2009

Cenas da Bizarreia



Tem clássico na Bizarreia. O time azul perdeu igual ao vermelho – imitou escore e desespero -, embora nem tenha chegado à final, como o outro. Mas diz estar embalado. Não está entre os primeiros, porém isto não importa. Está bem. Muito bem. Ganhou daqueles cuja camiseta, outro dia, vestiram entusiasmados, tudo em nome da derrota alheia. Que a derrota alheia é melhor que uma vitória própria. O vermelho não se importa. De campeão de tudo, virou vice-campeão de tudo, mas afirma: seu treinador é bom. Perde, mas é bom. Não forma ataque, nem defesa, não empolga, não comanda, não explica ao time que a bola é aquele negócio redondo que pula de um lado para o outro no gramado - e, por favor, não morde – e precisa entrar entre aquelas três traves que seguram uma rede. Entre. Não sobre, nem ao lado, nem na arquibancada. Mas é bom, o treinador. E, embora só tenha títulos azuis no currículo, merece toda confiança.
Ainda bem que nem só de futebol vive a Bizarreia. Vive também de discussões. O fantasma na casa do Michael Jackson. Importante. Quem vai ficar com Muricy. Fundamental. O último silicone da Vera Fischer. Os atos, desacatos e carrapatos do senador. Bom saber, embora nunca se saiba exatamente de tudo. Nem dos todos. Aliás, tentam convencer que o bom mesmo é nem saber. E saltitar atrás do trio elétrico. Ainda que dê choque. Rindo, a gente não sente. Ainda mais banguela.
Agora a Bizarreia debate um novo problema. Segurança pública. Novíssimo. Um incauto ainda se meteu a avisar: tudo que não se quer resolver, se discute. Sempre foi assim. E tudo continua como está, como sempre esteve. Disseram que ele distorcia as discussões discutidas do disco um ao novecentos. E nunca mais o convidaram. E discutiram.
Conclusão brilhante, após estudos quânticos e teorias sobre conspirações interplanetárias e reparações freudianas: tem muito crime, na Bizarreia. E muito bandido. Cada vez mais. O que fazer, perguntaram, escabelados, os entendidos, os intrometidos e os oferecidos. O que fazer?
Simples. Terminar com a polícia. Óh! Aplausos emocionados e intervalo. Afinal, tem que se dar um tempo para discutir o futebol.

Domingo, Julho 12, 2009

A Professora Izabel

Jornal Ibiá, coluna semanal de 09/07/2009.

(na foto acima, a Professora Izabel, numa matéria que o jornal fez sobre os 100 anos da Estação)

Dia desses, reencontrei uma professora muito especial. Maria Izabel Funk Nonemacher. Ela é a culpada de, hoje, eu escrever assim. Insistentemente. E tudo começou num embate. Não que eu fosse um mau aluno, mas era dos que sentam no fundo da sala. Sabe como é. Um dia matei aula para jogar bola. Havia uma redação para entregar e a deixei com um colega. Meu erro. Izabel leu e até gostou. Mas me deu zero.

Zero! E meu time ainda perdeu o jogo. Na aula seguinte, implorei para que ela acreditasse que a redação era minha. Izabel julgava que eu tinha dado para alguém fazer. Simples: eu era um aluno do fundão. Que matava aula para jogar bola. Desarmado, a desafiei: redigiria um texto ali, na sua frente, e o faria melhor que o outro. Para meu desespero, ela aceitou. Suei frio, tremi, tive dor de barriga. Mas fiz. E ela, ufa!, gostou.

Virou uma amiga, espécie de irmã mais velha no São João. Na construção literária, apoiou, ensinou estilos, lapidou textos, encurtou frases e dispensou palavras. Inscreveu-me em concursos - num fui premiado, noutro venceu um texto que ela descobriu ser plágio do Sabino. Pegou meu primeiro poema, "A Menina da Janela", puro romantismo juvenil, e disse que até estava bom. Mas não precisava enfiar panelas e cadelas banguelas nos versos só para rimar com o título. Anos depois, no meu primeiro prêmio literário, lembrei dela. A Izabel. Que chegou até a me dar a dica: um novo jornal abriria na cidade, quem sabe eu não tentava um emprego, já que queria cursar jornalismo e gostava de escrever. A vida me levou para outro lado. Porém, aqui estou, escrevendo justamente onde ela cogitou me ver um dia. Profética, a Mestra. Que disse ao aluno do fundão que ninguém precisa parecer nada. Tem é que, de fato, ser.

Foram milhares de alunos e talvez ela nem lembre nada disso. Mas foi muito bom reencontrá-la. Fiquei meio emotivo nesta coluna e vou remediar me torturando com o teipe do Inter na final da semana passada. Pior é revisar a coluna mil vezes. Vai que ela leia. E, definitivamente, se frustre com seu trabalho. Ou uma manifestação de leitores que me odeiam acampe no seu pátio, julgando-a culpada. E é. Definitivamente, ela é a maior culpada.