Sábado, Outubro 27, 2007

Troço de Elite

Jornal O Progresso, 26/10/2007.


Coisa séria, a nossa cabeça. O nosso comportamento coletivo. De uma hora para outra somos arrastados, lépidos e convictos, por alguma avalanche ideológica ou consumista. Ou ambas, de preferência. Pois até criança sabe que toda ideologia tem o seu preço. De pirulito a mensalão, nascemos sob chantagens. Valendo beijo da vovó ou o ministério do planejamento. Quem lembra, logo após a dita redemocratização do país, das cenas repetitivas no Fantástico, narradas como retrato da violência e da arbitrariedade da nossa precária e falida massa policial? A ordem era esculachar, polícia tinha que aparecer como bandido. Agora, as mesmas cenas são cantadas como heroísmo? Ué, o que aconteceu? Alguém mudou de canal? Ou é o efeito do filme aquele?
Poisé. Dizem que tudo não passa de uma poderosa manobra comercial. O filme Tropa de Elite fez uma propaganda tremenda, e de graça, só com o papo da pirataria que o vitimou (vitimou mesmo?). Após o lançamento oficial, as lojas de brinquedos foram invadidas por imitações dos equipamentos do BOPE, disputando espaço de igual para igual nas prateleiras com os porta-lança-tudo do Batman ou as engenhocas luminosas Star Wars. Acessórios lembrando o filme, aliás, já são encontrados nas melhores Sex Shop do país. O fuzil do Capitão Nascimento, por exemplo. Nunca viram? Consta no catálogo, oferta de lançamento: diversos tamanhos, cores e calibres. Sabor chocolate ou morango. Acompanha chantilly e refil. Adeptos da fantasia mais teatral, podem encontrar uma máscara do traficante Baiano que fala "na cara não, na cara não!", para a hora H. Com outros sentidos, obviamente. Ou pode optar um manual de treinamento do BOPE, com direito a frases de dominação máscula, lições sobre os tons diferentes de berro no ouvido e, como não poderia faltar, adjetivos fundamentais para uma boa humilhação. Do zero-um ao zero-zero. Tudo no melhor clima sado-mazô.
Enfim, ignorando tudo o que pode ser bizarro em volta desse filme – que é um excelente filme, diga-se de passagem -, é bom ver, finalmente, a polícia ocupando papel digno em filme brazuca. Que, aqui, policial militar quando aparece no cinema é figura caricata, inglória, arremedo de cangaceiro misturado com recepcionista de hotel (farda engomada e personalidade zero, capacho de qualquer um que lhe dê gorjeta). Nos países de primeiro mundo, o policial é herói em diversos filmes. A sociedade se valoriza ao valorizar aquele que lhe garante a ordem. Tudo bem, o Capitão Nascimento não é exatamente o herói perfeito de uma sociedade civilizada e ideal. Mas é nosso, retrato daqui. Só que, francamente, digo para vocês: conheço bem esse pessoal há quase vinte anos. Percorri lugares onde a lei é uma pedra no sapato de muita gente importante e pouco mais que fumaça no horizonte dos demais. Porém, tem um bom número de policiais que são muito mais heróis e decentes e que não precisam de farda preta nem adesivo especial. Usam farda comum, ganham mal mas têm vergonha na cara sim senhor. E paixão pela vida de polícia. Passam pelas mesmas guerras todos os dias. E não perdem o raciocínio.

Nem querem virar um troço qualquer, reduzidos a pouco mais que um brinquedo lascivo, manipulado para as orgias morais de nossa melancólica sociedade.


Domingo, Julho 08, 2007

A PEÇA DE LÚ


Jornal O Progresso, 06 de julho de 2007.
- E então? Gostou?
- Do quê?
- Da minha tanga. Dãnn.
- Tanga? Como eu ia ver sua tanga, com esse frio?
- Ai, era só uma ironia, João. Tô falando da peça.
- Que peça?
- Como assim, que peça?
- Se tá falando daquele banheiro, sei lá, achei apertado.
- Pô, João! Tá bêbado?
- Eu? Só tomei um refrigerante. Por sinal, quase sem gás.
- ...
- Ô, Lú! Quer largar o meu pescoço? Tá sufocando.
- Então acorda! Tô falando do teatro!
- Ah.
- E então?
- Sei lá.
- Sei lá? Como assim, sei lá? Achou boa? Média? Um fracasso?
- Não achei nada.
- Nada?
- Nada.
- Ninguém acha nada, João! Você viu a peça, tem que dar uma opinião. Diz alguma coisa. Se não gostou pode ser sincero. Tô louca pra saber!
- Sincero? Posso, mesmo?
- Pode.
- Não vi.
- Não viu?
- Dormi o tempo todo.
- Dormiu na minha peça?
- Você estava na peça?
- Era a minha estréia, João!
- Ah, é.
- Essa foi mortal. Meu próprio namorado dormiu na minha peça!
- Eu te falei que não gostava de teatro. Nem de comício.
- O que tem a ver?
- Sou um sujeito pé no chão. Acho tudo isso fantasia demais.
- Fantasia demais? Você está me chamando de fingida?
- Não. Quer dizer, sim. Ou seja, não você exatamente, mas o contexto, sabe?
- Só falta me dizer que toda atriz é mentirosa.
- Ah. Mas toda mentirosa não deixa de ser uma atriz.
- Isso foi horrível!
- Eu sei. Que tal mudar de assunto e falarmos sobre a sua tanga escondida? Hein? Hein?
- Escondida? Como assim, escondida?
- Ué, esse frio, essas roupas todas e...
- Ah. Esqueci que você dormiu... E não viu a peça.
- A peça? O que tem a peça?
- Pergunte pra quem viu.
- Você apareceu de tanga? Ah, não! De tanga, Lú? Na frente de todo mundo?
- Só até a metade.
- Só até a metade? Como assim?
- Já disse, pergunte pra quem viu.
- E depois? Hein? E depois da metade?
-...
- Lú! Volta aqui, quero ler esse roteiro! Lú! Lú!

Briga de Casal

Jornal Fato Novo, quarta-feira, 04 de julho de 2007.


Montenegro, domingo de inverno. Entardecer. Frio e chuva. Paramos a viatura em frente à casa e os dois vieram na nossa direção, correndo. Correndo não, se empurrando.
- Foi ela!
- Foi ele!
- Calma, gente. Precisamos saber o que aconteceu.
- Ela me agrediu!
- Ele me agrediu primeiro!
- Ela!
- Ele! Ele!
Precisamos pedir calma com menos calma de nossa parte.
- Quem sabe fala um de cada vez?
- Ela não tem que falar nada. Eu é que sou a vítima.
- Eu!
- Eu! Eu!
- Ah, é? Vou contar, então, o que ele me fez.
- Eles não querem saber!
- Senhor, queremos saber as duas versões.
- Pra quê?
- É. Pra quê?
- Isenção no procedimento. É a praxe.
- Rá! Vocês estão sempre do lado da mulher! Taí a Maria da Penha e o escambau. Só pra elas!
- Que nada! Puxam sempre pro lado dos homens e fazem vista grossa, que eu sei!
- Senhora, somos policiais, não tomamos partido e...
- Duvido! Quem vocês vão ouvir primeiro, então?
- É. Quem? Quem?
- Qual dos dois solicitou a nossa presença?
- Eu!
- Mentira. Fui eu!
- Quem é Jô?
- Jô?
- Pelo rádio informaram ser Jô a pessoa que nos chamou. Não sabemos se é homem ou mulher.
Os dois se olharam.
- Jô é a vizinha!
- Mas que cretina! O que ela tem que se meter na nossa vida?
- Inaceitável! A polícia sendo manipulada por uma vizinha bisbilhoteira!
- Vou registrar contra ela, ah se vou!
- Pessoal, já que vocês estão insatisfeitos, quem sabe vamos todos para a delegacia?
- Ai, meu Deus! Delegacia?
- Opa! Vocês não vão levar a minha mulher pra delegacia!
- Também não vou deixar que levem você, momor!
- Me abraça, vai.
Abraçaram-se. Beijaram-se.
- Por que vocês não vão prender bandidos em vez de ficar empatando a nossa vida, hein?
- Vem, momozão. Vou fazer chocolate quente pra nós.
Foram mesmo. Bateram a porta na nossa cara. Silêncio total. E mais frio. E mais chuva. A vizinha, que nos chamou, nem apareceu para dizer boa-noite.

Ladrão?



Jornal Fato Novo, quarta-feira, 27 de junho de 2007.


Montenegro, madrugada de sexta-feira. Frio, pra variar. O chamado era para um arrombamento em residência num bairro de classe média. Cuidado, ocorrência em andamento, frisam pelo rádio. Aceleramos. Poderíamos dar o flagrante se tivéssemos sorte.
Chegamos no local. O casal nos aguardava em frente na calçada, abraçado. Ele, de macacão e japona com o logotipo de uma empresa da cidade. Ela, de roupão e pantufas.
O marido é quem fala:
- Tem um ladrão na nossa casa.
- O senhor viu?
- Não exatamente. Cheguei agora do trabalho e ouvi só um barulho no pátio.
- Onde?
- Lá atrás, perto da goiabeira.
- E senhora? Viu alguma coisa?
- Eu... Eu estava dormindo...
A mulher choraminga e treme, assustada. Essas situações são mesmo difíceis. Traumatizantes. Pedimos que fique calma, estamos ali para ajudar.
- O senhor tem cachorro?
- Não.
- Outro animal?
- Tinha um peru. Comemos no Natal.
- E os vizinhos? Têm?
- Têm. Mas os muros são altos, nenhum conseguiria entrar.
- Tudo é possível, tudo é possível.
- Pode ser um gato, não pode? – diz a mulher, e nos encara, esperançosa.
- Pode, sim. - respondemos, para acalmá-la. Porém, ela continua tremendo, e choramingando.
Informamos a situação via rádio, pedindo que outra viatura fique atenta à rua que passa nos fundos da casa. Se for ladrão, pode escapar. Bicho também. O importante é identificar quem ou o quê está ali. Se ainda está. Apanhamos a lanternas. Ouvimos um barulho nos fundos. Opa!
Pedimos ao casal para que fique num local seguro. Armas na mão, entramos. Vistoriamos as aberturas da casa. Intactas. As laterais. Tudo certo. Iluminamos o porão através das frestas nos tijolos. Nada. Dividimo-nos para avançar aos fundos. Vamos progredindo com cuidado. Passo a passo. Todo cuidado é pouco, na escuridão. Seja gente ou bicho o que está naquele pátio.
Tensão. Na frente da casa, ouvimos o choro da mulher, que aumenta. O marido pede calma.
De repente, atrás de um arbusto, surge uma pele de urso, ou coisa parecida.
- Urso?
Meu colega vem. Como assim, urso? A mulher na frente da casa chora ainda mais. Cutucamos o urso, ou seja lá o que for. Que se mexe, trêmulo. Pegamos pelo cangote.
- Rá! Te pegamos!
Era um casaco de pele.
- Pegamos o cara! - anunciamos, vitoriosos.
Na frente da casa, a mulher parece chorar ainda mais. Quase em desespero. Deve ser pelo casaco, pensamos. Coisa fina, talvez custe uma nota preta, aquilo. Puxamos o casaco. O sujeito está nu.
- Você está nu?
- Nu? – pergunta o marido, que se aproxima.
- Levante-se! – ordenamos.
- Marlene! – o sujeito grita, desesperado, escondendo as partes.
- Marlene? – estranha o marido.
- Marlene? – estranhamos também.
Na frente da casa, cessa o choro.
Marlene, a mulher do sujeito, desmaia de vez.

Sábado, Junho 16, 2007

Na Livraria


Jornal O Progresso, pág 06, sexta-feira, 15/06/07.


- Dirceu!
- Você? Aqui?
- Que é que tem?
- Estou surpreso, só isso.
- Por quê?
- Nunca te achei uma mulher que gostasse de livros.
- E não gosto.
- Hein?
- Tô procurando um livro pra presente.
- Ah.
- Meu namorado.
- Outro?
- Que outro, Dirceu? Que outro?
- Deixa assim. O que ele faz da vida?
- Professor.
- Putz. Duplamente azarado.
- Ciumento!
- Nem vem, nem vem. Já me casei, lembra? E além do mais, faz muito tempo que...
- Tá, tá. Não precisa ignorar. Quem vive de passado é...é...
- É o quê?
- Esqueci. Mas deixa pra lá, preciso de ajuda. Não sei o que levar.
- Isso é fácil. Que tipo de leitura ele gosta?
- Sei lá.
- Sei lá?
- Sei lá, oras. Nunca conversamos sobre isso. Tem coisa melhor pra se fazer com um namorado.
- Sei. Tipo ficar bebendo ao lado do carro, num postinho, ouvindo tunch-tunch.
- E daí? Qual o problema? E, pra teu governo, essa minha fase já passou.
- Sei...
- Acho bom. Sou uma nova versão de mim mesma. Moderna, independente, culta. Pra frentex!
- Isso é nome de preservativo?
- Não provoca, Dirceu, não provoca! Vai me ajudar ou não?
- Tá. Leva qualquer um desses aí, do balaio.
- Auto-ajuda? Tá doido? Quer que eu perca o namorado?
- Verdade. Vai que o cara se cura da doideira e...
- Eu quis dizer que ele é um homem inteligente.
- Hum. Então leva este. É Nietzsche.
- Quê?
- Nietzsche.
- Não! Se ele me pergunta o que é isso, vou pagar mico. Aí pode pensar que sou burra.
- É.
- Qual é a graça, Dirceu?
- Nada, nada.
- Olha aqui, não precisa me ajudar mais, viu?
- Nem quero.
- Tá é com ciúmes do Robervaldo, que eu sei!
- Robervaldo?
- Robervaldo. O próprio, barba, barriga e bigode.
- Putz! Mas ele é professor de...
- Eu sei. De culinária. Especialização em mocotó. E daí?
- É que...
- Rá! Preconceito, né? Só falta dizer que só me sobrou o Robervaldo pra namorar!
- Eu...
- Não preciso mais da tua ajuda, Dirceu. Não preciso!
- Eu só ia sugerir um livro de...
- Ô moça, me dá esse aí, de economia mesmo.
- Economia?
- O do Níquel.
- Nietzsche?
- Eu já disse que não preciso mais da tua ajuda, Dirceu. Não preciso!

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Diário de Radiopatrulha 5


Jornal Fato Novo, quarta-feira, 13 de junho de 2007.


Grêmio Gaúcho, Montenegro, mês passado. Fim de festa. Aos poucos o pessoal vai sumindo na direção de suas casas. Uns mais alegres que os outros, novo casais formados, novos descasados desconsolados. A madrugada quer amanhecer calma. A lado da viatura, esperamos o movimento encerrar. Até que resta apenas um sujeito. Ele parece que ainda dança. E balança. Quase cai. Está bêbado e vem na nossa direção. Iihh...
- Fui... Hic!... Fui assaltado!
Não podia ser. Assistimos a sua saída do clube, são e salvo. Comprou mais uma latinha de cerveja no trailer e tomou, parado na esquina. Jogou a latinha fora e veio até onde estávamos. Ninguém havia chegado perto dele.
- O senhor? Assaltado?
- Assa... Hic!... Assaltado!
- Quando?
- Ago... – balança, soluça, quase cai, um poste o segura – Agora!
- Impossível. Estávamos aqui tempo todo e...
- Vocês...Hic!... Vocês... São uns... uns...
- Opa!
- Uns cegos! Hic!
- Quem sabe o senhor chama um táxi e...
- Táxi? Hic! Que táxi? Fui assaltado, pô!
- Senhor, ninguém lhe assaltou, estávamos aqui o tempo todo.
- Vi... Viatura!
- Hein?
- Me leva de... Hic!... Viatura!
- Rá! Então é isso! O senhor quer carona.
- Assa... – ele balança outra vez, o poste ali, firme, segurando todas - Assaltado! Quero ir... Hic!... pra...
- Pra casa? Certo, chamaremos um táxi.
- Não!
- Senhor, não podemos dar caronas. Já pensou se todo mundo bebesse nas festas contando com carona da polícia? Ou vai embora com um amigo, ou vai de táxi. A viatura só transporta presos ou vítimas.
- Aí!... Sou víti... Vítima... Pode me levar. Hic!
- Podemos, no máximo, chamar um táxi. O senhor é responsável pelos seus atos e, se bebeu, deve...
- Bebeu? Eu? Hic! Nhaum bebich nhada!... Leva eu aí pra...
- Não!
- Vou chhh... Vou chamar a rrribeéchiss...
- Pode chamar a RBS. O Fato Novo. Quem o senhor quiser. Vai ficar feio é pro senhor.
Ele se afasta, trôpego. Gesticulando e falando sozinho. Anda um pouco e pára. Tira a carteira do bolso. Sacode no ar. De repente, começa a saltitar e cai na calçada. O corpo todo sacudindo. Ataque epilético!, ataque epilético!, pensamos. Fomos ajudá-lo. Mas, mal chegamos perto, ele levantou.
- Tá... Hic!... Podem me levar!
- Hein?
- Foi esse cara aí que... Hic!... Me assaltou...
- Cara? Que cara?
- Rá! Viu? Até já... Hic!... Ocultei o cadáver... Hic!... Podem me levar.
- Mas, senhor, se o acusarmos de homicídio, vamos levá-lo para a cadeia, não para casa.
- Isso! Isso!
- Isso?
- Não quero ir... Hic!... Pra casa....
Ele fez gestos imitando um rolo de massa batendo nele. Quando dissemos que o problema não era nosso, mas de quem bebia, chorou. Implorou, ameaçou, quase se jogou dentro da viatura. Chamamos o táxi. Ficamos esperando o amanhecer e a ocorrência evolvendo o rolo de massa. Nada.
As mulheres estão cada vez mais tolerantes, mesmo.

Sexta-feira, Junho 08, 2007

Afinidade Cultural





Jornal O Progresso, sexta-feira, 08 de junho de 2007.


- Dá beijinho, dá.
- Peraí. Quero fazer um teste.
- Depois, depois. Agora é beijinho, vem cá.
- Calma. Preciso saber se temos afinidade.
- Hein?
- Afinidade cultural. É importante pra ver se o relacionamento vai longe.
- Ih. Frescura de revista.
- Não é. Olha só, para cada afinidade, um beijinho.
- Opa! Melhorou.
- Falando em revista, qual prefere? Placar, Veja ou Contigo?
- Playboy.
- Não vale. Outra pergunta: tipo de música?
- Milonga.
- Bossa Nova e pagode. Quase deu. Livro?
- Livro?
- Não lê?
- Vale o manual do Chevetinho?
- Não. Pois eu gosto de poesia. Zero ponto, hein! Tá difícil.
- Vamos pular isso e passar direto ao beijinho?
- Não. É importante. Teatro ou cinema?
- Depende do canal.
- Canal?
- Isso não é na tevê?
- Ai-ai-ai. Shakespeare, Veríssimo ou Paulo Coelho?
- Fernandão e Gabiru.
- Uf! Comédia, suspense ou terror?
- Sexo. Vem pro beijinho, vem.
- Calma que tá danado! Parece que não temos nada a ver.
- Isso porque ainda não rolou o beijinho...
- Então tá: sexo com amor ou transa por diversão?
- Essa eu respondo depois.
- Hum... Dança, canta ou toca?
- Escuto. Mas não gosto de som alto.
- Platão ou Prozac?
- Cachacinha com mel e limão. Tiro e queda.
- Tropicália ou Jovem Guarda?
- Só não como peixe com espinha e aipim com fiapo.
- Putz! Bush, Yeda ou Bin Laden?
- O meu pai. Pelo menos ele mostrava o rebenque e explicava a tunda.
- Esquerda ou direita?
- Fico no meio. Mas em pé.
- Absurdo! Você não tem nem posição política. Não vai dar certo.
- Não?
- Nunca! É muito choque cultural entre nós. Nada a ver. Precisamos acabar tudo. Aqui e agora!
- É?
- É.
- Tá. Mas eu posso fazer a última pergunta?
- Claro...
- E aí? Motel ou Chevetinho?

Eu, Eu Mesmo & Impunidade




Jornal Ibiá, quinta-feira, 07 de junho de 2007.


Quando o país assiste a uma histórica avalanche de prisões do colarinho branco, discussões sobre foro privilegiado e maioridade penal, é comum assistir-se à verborragia entusiasta e radical na busca de soluções para o cenário caótico. Pena de morte, volta da ditadura e outros gritos que nascem de uma indignação justa, mas onde, por falta de cultura, interesse ou entendimento, acabam maximizando focos distorcidos. A democracia, as garantias cidadãs, levaram muito tempo para se conquistar. A recuperação das mazelas históricas – culturais, políticas e sociais - deste país, não passam pelo atropelar do tempo nem por extremismos de Estado. É fácil olharmos assim, de maneira simplista - passa-se um rodo e está feita a faxina na sociedade. Hitler já tentou isso. Deu no que deu. E ainda tem aquele velho adágio que diz: nos olhos do outro é colírio, no meu... Pergunta-se: no liberar das feras, quem será devorado? Ou, mudando ainda mais o cerne do debate: o que fazemos, nós para nós mesmos, a fim de acabar com a impunidade?
Na verdade, gostamos dela. Criticamos quando são os políticos, lá, metendo a mão no nosso bolso. Ou juízes, policiais, fiscais, poder público. Ficamos injuriados, estamos sendo agredidos, ignorados, ludibriados. Ficamos no prejuízo. Mas, e quando ocorre o contrário? Quando a impunidade nos beneficia, quando dá lucro? Ficamos brabos? Ou gostamos dela?
Compramos produtos sem nota e sem procedência, alimentando uma indústria criminal complexa. Mas há vantagem e, se sofremos represália, não gostamos. Nosso comportamento nas festas é agressivo, mas se a polícia intervém, nos achamos no direito de alegar status social, sobrenome, cargos e o escambau, reivindicando foro privilegiado inexistente numa superioridade humana que o comportamento já jogou no ralo. No trânsito, desrespeitamos sinais, limites, regras e obrigações, colocamos em risco um sistema complexo de vidas, mas reagimos à multa óbvia como se fôssemos vítimas do próprio crime. Damos mau exemplo aos filhos, estacionando carro em fila dupla em frente à escola. Mas não gostamos do PM adotando providências contra nós. Não pagamos contas, mas se a loja não quer mais nos vender, berramos.
Enfim, acabar com a impunidade precisa que uma lei seja vetada definitivamente: a Lei de Gérson. A partir daí, uma cultura de valores familiares, honestidade, respeito a próximo e a busca inteligente de arrumações sociais, políticas e econômicas. Onde a boa luta, o bom caminho, valha a pena. Democracia é um bem raro e difícil. Não podemos jogá-la fora outra vez de forma tão irresponsável.

Diário de Radiopatrulha 4




Jornal Fato Novo, 4ª feira, 06 de junho de 2007.


Ramiro Barcelos, semana passada, centro de Montenegro. Meio de tarde. Fato real (e nem é tão "fato novo" assim). Um carro último tipo cruza a faixa de segurança da Praça Rui Barbosa, quase atropelando uma velhinha. Segue, veloz. Atravessa no sinal amarelo, buzina para um senhor na cadeira de rodas e não liga o pisca, mas entra na José Luís. Faz o retorno proibido para ingressar na João Pessoa, cortando a frente de um outro carro, e estaciona. Na frente de uma garagem. Mais de meio metro longe do cordão. Quem dirige é um homem jovem, boa pinta, óculos espelhados. Abordamos.
- Seus documentos, por favor.
- Como?
- Seus documentos. Carteira de habilitação e licenciamento do veículo.
- Pra quê?
- Fiscalização de trânsito.
- E por quê eu?
- O senhor acabou de cometer algumas infrações e...
- Eu?
- Sim.
- Nunca!
- Foi constatado que...
- Constatado? Filmou, fotografou, tem alguma prova?
- Senhor, eu estava na viatura e vi o que...
- Viu? Rá-rá! Me diz uma coisa, por acaso sabe quem eu sou?
- Enquanto o senhor não me alcançar os documentos, não.
- Eu sou Fulano! Entendeu? Isso não te diz nada?
- Entendi. E isso diz que preciso conferir os seus documentos, afinal o senhor será notificado por...
- Que absurdo! Por quê vocês não pegam os bandidos desta cidade? Hein? Hein?
- Pois o senhor esteve perto de virar um bandido desta cidade. Quase atropelou duas pessoas e, por pouco, não provocou uma tragédia ao cortar a frente do outro carro, ali na esquina.
- Estou com pressa. Tenho que ir ao banco.
- Então me dê os seus documentos. Eu o autuo pelas infrações e o senhor pode ir ao banco.
- Vem cá, não dá para fechar os olhos? Nem se eu for ao banco primeiro e depois voltar, ahn, hum, com um presentinho?
- Aí o senhor será preso por tentativa de suborno.
- Mas vocês são muito burros, hein! Espera só, vou telefonar pro Capitão!
- Para quem?
- Pro Capitão. Conheço bem ele. Vou te entregar, te transferir daqui, te tirar da Brigada!
- O senhor conhece o Capitão?
- Claro que conheço! Meu parceiro. Vai ver só, ainda vai te arrepender de ter me abordado.
- Acho que não.
- Ah, vai! E como vai! Vou ligar pro celular dele. Rá!
- Ele está sem o celular, moço. E diz que não lhe conhece.
- Como que não? Tá duvidando da minha palavra? Quem tu pensa que é?
- Sou um policial em serviço.
- Tá, mas me diz o teu nome. Diz, diz, que é pra eu te denunciar pra ele!
- Moço, o senhor consegue ler o meu nome, aqui na farda?
- ...
- Poisé, sou o Capitão. Prazer em conhecê-lo. Agora pode me alcançar os seus documentos?

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Papo Cultural 2

Precisamos Rir Mais Por Aqui

Jornal O Progresso, pág 06, sexta-feira 01/06/2007.

A necessidade de rir é buscada pelo ser humano quase que de uma forma tão fisiológica quanto a fome e outras mais. Exemplo? Paulinho Mixaria vem a Montenegro e lota o Atayde Cardona. Por quê? Nosso povo quer rir. E não é privilégio local. Toda manhã de quarta-feira, um grupo de pessoas se encontra na praça da Liberdade, em Belo Horizonte, para rirem juntas. São praticantes da hasya ioga, técnica criada pelo médico indiano Madan Katari, em 1995. Exercícios de respiração seguidos por sessões de sorriso estimulado, com emissão de sons (ho, ho, ha, ha!). Não, não são loucos. Resultados? O fortalecimento do sistema imunológico, sensação de bem-estar, aumento da auto-estima, da autoconfiança e prevenção de doenças. E um dia bem melhor para cada um. Então, créditos aos provérbios "rir é o melhor remédio" e "o humor é a distância mais curta entre duas pessoas".
Francamente, dor e sofrimento, notícia ruim, desgraça, caos no trânsito, corrupção nacional, violência, vida alheia e os buracos da Buarque, tudo isso, em determinado momento, enjoa. Gera discussão, rancor e faz mal. Deixa azedo, amargo, inapto para a convivência. Sem vontade. Não é de graça que os hospitais investem na inserção da alegria como auxiliar na recuperação de doentes. E estas conclusões não são de agora. No século IV a.C., Hipócrates, o pai da medicina, já utilizava animações e brincadeiras na recuperação de pacientes. Em 1916, Sigmund Freud escreveu o trabalho "A Graça e suas Relações com o Inconsciente", defendendo que o riso desencadeado por cenas cômicas melhora a saúde física e mental das pessoas. Na década de 60, o médico Hunter Adams (ou Patch Adams) inseriu o riso como instrumento terapêutico para a cura e recuperação de doentes (biografia filmada em 1998, com Robin Williams).
Tá. Não sou médico, eu sei. Mas foi um médico – gente boa e alegre – que me explicou. A risada é produzida pela contração de 28 músculos faciais, gerando ondas vibratórias que balançam a cabeça, vibram no tórax e se espalham, relaxando músculos, nervos, órgãos, enfim, todas as células do organismo. Além disso, as endorfinas se distribuem pelo corpo, propiciando relaxamento orgânico e emocional. O riso parece ajudar também na saúde cardiovascular, reduzindo a pressão arterial e com indícios epidemiológicos de que pode diminuir a incidência de infarto do miocárdio. Melhora o tônus vascular e a pressão arterial, protegendo coração e cérebro contra acidentes vasculares e derrames. Durante uma gargalhada, o ritmo do coração acelera: ao pulsar com mais vigor, estimula a circulação de sangue pelo organismo. Ao estimular músculos abdominais, os movimentos podem ajudar a digestão e o funcionamento do aparelho intestinal. A respiração durante a risada, também, é mais vigorosa. O ar é inspirado com mais profundidade e expirado com mais força, aumentando a ventilação pulmonar. De acordo com pesquisadores, as crianças riem de 300 a 400 vezes por dia, enquanto entre os adultos essa freqüência diminui para 15 vezes ao dia. Por isso nós, adultos, brigamos tanto por nada e somos tão sem graça, deixando o mundo essa coisa chuchuzenta aí.
Mas o que eu quero dizer, com isso tudo, é que é lamentável o momento vivido pela comédia brasileira. Poucos programas de televisão, raros filmes (que chega é enlatado gringo), a literatura banal (vida de artista, auto-ajuda e outros assuntos de quinta categoria) e, nos jornais, Veríssimo e pouco mais além dele. Mas há um lugar onde o riso continua forte: nos palcos. E, aqui, ao alcance do nosso apoio e gargalhada, há ótimos atores e espetáculos. Seja com o pessoal do Espaço da Arte, da Uergs, da Fundarte, Rua dos Cataventos ou outros, temos risos fáceis, ótimos e disponíveis. Não precisamos esperar o Paulinho Mixaria aparecer. Vamos lotar quando estiver em cena o pessoal daqui, também. Nossa saúde precisa. E o talento deles merece.

Quinta-feira, Maio 31, 2007

Diário de Radiopatrulha 3

Jornal Fato Novo, 30 de junho de 2007.


Apreendemos 141 máquinas de caça-níquel em Montenegro, semana passada. Incrível. Há mais de meio século é proibido o jogo da azar no Brasil. Mas a coisa continua. E se alastra. Nosso país deve ser o campeão interplanetário de enriquecimento ilícito. Quem paga a conta é o povo. Carente de esperanças e frustrado, se entrega passivamente como boi de abate à exploração. E gostando, sem entender o quanto é vítima neste processo todo. Como um veterano, que entrou num dos bares onde estávamos atuando. Pediu licença, queria jogar na máquina. Mesmo vendo a polícia. Nem aí pra nós. "Não pode", alertamos.
- Por que não posso?
- Máquinas interditadas.
- Por quê?
- Vamos recolher. Jogo de azar é atividade ilegal, senhor.
- Recolher? Todas?
- Todas.
- E onde eu vou jogar, agora?
- O senhor não vai mais jogar.
- Mas eu quero!
- Meu senhor, estas máquinas lhe fazem mal, tiram o seu dinheiro.
- Quê? Vocês estão por fora! Semana passada ganhei oitocentos contos! E vocês sabem quanto é o meu salário? Quinhentos! Isso não dá nem pra comprar um carro, pô.
- O senhor já ganhou muitas vezes?
- Duas! Na outra, levei cento e vinte.
- O senhor joga sempre aqui?
- Só de vez em quando.
- "De vez em quando", quanto?
- Segunda á sábado. Domingo não, que o bar fecha.
- Ah. E há quanto tempo o senhor joga?
- Uns dois anos, mais ou menos.
- Aposta quanto por dia?
- Quase nada. Uns cinco, dez reais. Coisa que não faz falta, sabe.
- Então vamos calcular: o senhor ganhou novecentos e vinte reais das máquinas. Apostando durante dois anos, deixando apenas os domingos de fora, o senhor jogou durante 626 dias. Numa média de sete reais e meio por dia, o senhor gastou 4.695 reais. Para ganhar pouco mais de novecentos. Ou seja, seu prejuízo foi de quase quatro mil. O senhor ainda acha que ganhou? Quatro mil reais nunca lhe fizeram falta?
- Ah, hum, é. Mas, é aquela coisa de tirar o estresse, sabe?
- E a tensão que o senhor fica enquanto joga, pensando em ganhar? Não estressa?
- ...
- Se guardar esses quatro mil, o senhor consegue comprar um carrinho usado. E bem bacana.
Ele baixou a cabeça e ia saindo, meio contrariado. De repente voltou.
- Só uma pergunta...
- Pois não.
- Apostei com uns amigos que o Grêmio vai perder para o Santos, na Libertadores. Isso também é jogo de azar?
Tivemos vontade de dizer que não, afinal jogo de azar é quando há mais de uma possibilidade de acertar ou perder. Obviamente, neste caso a resposta era uma só e ele ganharia de qualquer jeito. Mas, como o Grêmio anda com muito "jogo de sorte", deixamos assim. Nosso problema, naquele dia, eram os caça-níqueis. Nada mais.

Segunda-feira, Maio 28, 2007

Metrodiálogos - 1

Jornal Metrô em Foco - maio de 2007.

- Ai, meu deus!
- O que foi?
- Nada, nada.
- Tá te sentindo bem?
- Ahn, hum, tô. Quer dizer, não tô!
- O que houve?
- Enxaqueca.
- Enxaqueca?
- É, enxaqueca. Muita, horrível.
- E enxaqueca dói na barriga?
- Hein?
- Você tá agachado.
- Ah. Poisé. Dores múltiplas! Isso, dores múltiplas.
- Hum. E pra onde você está olhando?
- Eu?
- Você.
- Olhando?
- Olhando, sim! Quem é aquela?
- Onde?
- Aquela, que tá vindo pra cá. Quem é?
- Vindo pra cá? Ai, meu deus! Ai, meu deus!
- Conhece?
- Sim! Quer dizer, não!
- Mas...
- Vem, vamos descer.
- Descer? É a Estação Aeroporto, nós...
- Mudança de planos. Vem!
- Ah, não vou. Mas não vou mesmo!
- Como assim?
- Quero uma explicação!
- Não dá tempo. Vem!
- Quem é ela?
- Ai meu deus...
- Quem é? Fala!
- Tá, tá. Calma. Aquela... Ahm... É a minha mulher.
- Mulher? Você nunca me disse que era casado!
- Você nunca perguntou.Vem ou não vem?
- Não vou a lugar nenhum mais! Mentiroso!
- Ai, meu deus. Sem choro, sem choro. Vai chamar a atenção, pô. Vem!
- Não vou!
- Então fica aí, azar.
- Canalha! Sem-vergonha! Volta aqui!
- ...
- Volta!
- Moça?
- Er... Oi.
- Aquele homem que acabou de pular do trem... É o Nestor?
- Olha, eu juro que não sabia de nada!
- É ele?
- Sim, é ele. Mas, por favor, sem puxar os cabelos que fiz chapinha ontem.
- Não tenho por que fazer isso.
- Não?
- Olha o meu crachá. Receita federal, moça.
- Hein?
- E aí? Sabe pra onde ele foi?

Papo Cultural - 1

EU NÃO QUERO LER GRINGOS!
Jornal O Progresso, sexta-feira, 25/05/2007, página 06.


E nem adianta eles me oferecerem livro de “como ser feliz em dez lições”, “aprenda a se amar sendo feioso” e outras balelas de auto-ajuda. Que, francamente, essas obras, que inundam e dominam o nosso mercado livreiro, não têm condições de ajudar em nada. Brasileiro nenhum. Não, não é radicalismo. Já li os clássicos estrangeiros, aqueles que a História traz como marcos da literatura universal. Outros quinhentos. Só não troco os estrangeiros descartáveis de hoje pelos nossos clássicos, que são muitos. Assim como os latinos. Autores americanos ou europeus não nos ajudam em nada, pois já começam destruindo nossa auto-estima ao desprezar a cultura nacional, varrendo das prateleiras os autores daqui. Derrubando na imposição, na propaganda imposta, na conquista do espaço de forma violenta e inescrupulosa aqueles que são, realmente, o que somos, e traduzem nossas verdades e angústias. Aos leitores: não leiam nem comprem autores de fora antes de conhecer os nossos. E, como temos diversos escritores excelentes, posso passar umas duas encarnações recomendando coisa boa daqui, antes de chegar no primeiro de fora. Não tem pra eles. Brasileiro precisa se valorizar. Gringo é gringo. E o único Gringo que eu gosto é o da Galeteria, aqui na cidade.
A festa em torno do astronômico comparecimento à 12ª Bienal do Livro no Rio, agora em maio, camufla desonestamente a vulnerabilidade do mercado editorial brasileiro. Livros caros para o cidadão, desnacionalização de empresas e invasão de títulos estrangeiros. A grande imprensa não só esconde, como não abre mão de lucrar com este quadro de horror e estupro mental. Todos sabem: para o brasileiro, o livro é bem supérfluo, graças à crise econômica gerada e a economia de rapina que nos acompanha há séculos. Nosso mercado editorial, hoje, mostra que o capital movimentado pelo setor corresponde à metade de dez anos atrás. Pudera! Na lista dos dez títulos mais vendidos em junho, apenas um autor nacional.
Assim, nossas editoras brasileiras vão se rendendo. A espanhola Santillana comprou 75% da Objetiva. E a Ediouro - criada pelo jornalista e político de triste memória, o estrangeirista de carteirinha Carlos Lacerda - comprou metade da editora Nova Fronteira. Em eventos como Bienais, FLIP e Feiras do Livro, as grandes estratégias de propaganda garantem a autores estrangeiros atenção, lugar de honra e consumidores. Como os governos “brasileiros” sempre preferiram incentivar a entrada de capital estrangeiro a proteger a pequena indústria livreira nacional, o circo está armado. Os palhaços somos nós, povão. Assim, essas editoras de fora que assumem o mercado editorial brasileiro se transformam, ao mesmo tempo, no maior obstáculo à divulgação do mais autêntico pensamento brasileiro através dos livros. Inclusive dos didáticos.
Então, caros leitores, deixem os gringos mofarem nas estantes. Defenda a literatura nacional. Não aceite recomendação de autor estrangeiro, temos algo melhor a oferecer. Páginas erradas podem ser uma pá de lama (para não dizer coisa pior) sobre a cova de nossa liberdade. O preço é o fim do auto-respeito, da confiança e um breu futuro de presente para os nossos filhos. Pois, a nossa realidade, os de lá acham que é ótima. Mas para eles ganharem dinheiro às custas de nossa lucrativa ignorância.

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Diário de Radiopatrulha 2

Jornal FATO NOVO - 4ª feira, 23 de maio de 2007


Há quem explique a autodestruição como elemento da cultura moderna, globalizada, mecânica e o escambau. Não sei. Talvez o furo seja mais embaixo, e falte alguma dose de certos valores. Gostar do que faz mal e jogar a culpa na crise, no outro ou em não saber de nada (esta, só o Presidente pode usar) é sempre mais fácil. Exemplo? Pirataria de cds. Que é crime e é nocivo, tá todo mundo careca de saber. Reduz a vida útil de qualquer aparelho pela metade e, a economia que se alega driblando impostos e carnê de loja, volta em dobro só para arrumar o leitor ótico. Que nem sempre dá pra arrumar. E dificilmente estraga sozinho. Enfim, há quem insista. Só em fevereiro deste ano, em Montenegro, foram apreendidas mais de mil unidades de CDs e DVDs piratas. Ora, só há comércio se existe procura. Cliente. Como o rapaz que ligou ao 190, uma tarde dessas. Estava em frente a um posto de gasolina, carro na maior pose de que ia causar perturbação do sossego alheio. Porém, nenhum som ligado. Tudo quieto. Mudinho da Silva.
"Fui enganado!", ele gritava, andando de um lado para o outro, furioso, repetindo que não-sei-quem ia ver, ainda era o Osvaldino, campeão de karatê e faixa preta. Iiáii, e ao soltar esse gritinho fazia uma pirueta com as mãos, afinando a voz. A pobre placa de estacionamento foi quem sofreu os golpes. Zuki, reconheci. Soco, um braço estendido, outro recuado. E olhe que parei com as aulas lá pelo último aumento de salário. Mais de década.
"Sou fã do Ney Matogrosso, pô!". Tá, tudo bem. Cada um é fã de quem quiser. Até do Ney Matogrosso. Mas não precisava dançar vira-vira homem vira lobisomem ao lado da viatura. Precisamos perguntar uma dezena de vezes o que houve. Só então parou. Ainda bem. Aquilo, de chacoalhar umbigo na nossa frente, estava pegando mal. "Quero registrar uma ocorrência", ele completou. Mas foi indagarmos do que se tratava e começou tudo de novo. Osvaldino, karatê, faixa preta, iiáii!, zuki, zuki. Antes que voltasse a rebolar, o imobilizamos sutilmente. Só então ele nos mostrou um cd. Colocou no rádio do carro e pediu para que nos aproximássemos. "Viram? Não toca!", reclamou. Quisemos saber a loja onde ele comprou o aparelho. "Não, nada com o rádio", disse, colocando outro cd. Também do Ney Matogrosso. E que, para azar nosso, tocou. Pois não deu meio minuto e ele começou a tamborilar, cantando junto e cada vez mais alto. Até que desceu do carro e já ia chacoalhando o umbigo. Outra imobilização.
"Onde o senhor comprou o cd?", questionamos. Ele voltou a si. Ufa! Perguntou se o código do consumidor o protegia. Sim, a lei prevê troca do produto com defeito ou ressarcimento. Isso se faz diretamente na loja, passa a ser crime se o problema não for resolvido. "E se não comprei em loja?", ele questionou, gaguejando. Bem, então a pessoa que lhe deu poderia ir até onde adquiriu o produto. "E se ele não adquiriu?" Opa! Como assim, não adquiriu? Furtou? Roubou?
- Copiou. – ele respondeu, a voz quase sumindo. Rá! Pirataria é crime! Tocando o cd ou não. Destruindo o leitor ótico do rádio agora ou semana que vem. Mal terminamos de falar e ele voltou a caminhar de um lado para o outro, resmungando. Era o Osvaldino, faixa-preta. Nunca gostou de Ney Matogrosso, ainda pegava quem colocou aquele tróço no seu carro, iiáii, zuki, zuki. Pobre da placa. O patrulheiro apanhou um boletim de ocorrência e pediu os seus documentos. "Não se preocupem, vou jogar isto fora. Nem quero mais registrar", ele disse.
- O senhor talvez não. – e o soldado o encarou - Mas a placa, aí, quer. Dano ao patrimônio público.
Ele já ia dançando vira-vira homem vira lobisomem, outra vez. Imobilização, imobilização!

Terça-feira, Maio 15, 2007

Diário de Radiopatrulha 1



Há dias em que nos perguntamos como determinadas coisas ainda acontecem. Ficamos entre rir do inusitado e chorar pelo breu absurdo. Resposta simples: cultura. Temos medo de alguns verbos. Horror, trauma, o que for. Tipo: ler. Cruzes! Estudar? Entender, buscar, compreender? Fora de moda, pô. Normal. Não nos afeta, pensamos. Então naturalmente não sabemos de nada, ou entendemos tudo errado. Afora raras exceções de interesse ou necessidade, por exemplo, livro é bicho. Revista vale o quanto traz de figura (preferencialmente mulher pelada, ou quase pelada). Jornal bem que podia ter horóscopo e fofoca de artista. Só. Ah, o esporte. E olhe lá. O resto é descartável. Não assistimos noticiário, nossa tevê só pega novela, desenho e futebol. Não necessariamente nesta mesma ordem, vai de quem manda mais em casa. O dial do rádio trava nas bandinhas. Ou nas milongas. Ou no pagode. Ou, ainda, naquelas coisas estranhas que nossos filhos adoram e nunca se sabe qual é mesmo o nome. Nada contra. Porém, tudo pode ser dosado. E as notícias? Os debates? A cultura? Ficamos naturalmente por fora de tudo. Ou pensando estar por dentro, o que é ainda pior. Aí, até pedir ajuda nos afeta.
Foi o que aconteceu um dia desses. Patrulhávamos algum lugar perdido entre o Rio Caí e o Pólo Petroquímico. De repente salta um sujeito, olho roxo, gesticulando feito um cata-vento quebrado em dia de furacão. Paramos. Até porque, se não parássemos, o atropelaríamos. E, pô, recém havíamos arrumado o pára-lama, amassado pela torcida do Grêmio.
- Eu quero proteção da Maria da Penha!
- Hein? - Estranhamos. Sim, era um homem. Sem jeito de transformista ou caso parecido.
Na verdade, nada de novo. A implementação da lei Maria da Penha saiu mais na imprensa que a separação do Gianechini e a queda do Abel. Porém, é comum encontrarmos quem sequer tem idéia da sua existência ou do que ela signifique. Do seu objetivo de coibir a violência doméstica contra a mulher. "Contra a mulher", repetimos ao sujeito do olho roxo.
- Mulher? Pô, e eu?
- O senhor é homem.
Sim, ele era. Mas só confirmou depois de pensar um pouco. Essa lei não é pra briga de casal?, insistiu. Explicamos: a Maria da Penha visa a mulher, enquanto vítima. Estabelece a prisão em flagrante, agilidade processual, rede de proteção e por aí vai. O nome vem de Maria da Penha Maia Fernandes, uma cearense, biofarmacêutica e pós-graduada que, com medo de represálias, não quis a separação do marido. Marco Antônio Herredia Viveiros, um colombiano que a agredia diariamente, até que tentou matá-la. Primeiro com um tiro, deixando-a paraplégica. Depois eletrocutada durante o banho. Da Penha separou do marido e escreveu um livro: "Sobrevivi, Posso Contar".
- Também vou escrever um livro, então. E mandar pro Lula. Falar com vocês, eu já vi que não adianta. – disse o homem, indignado, exigindo flagrante da esposa, abrigo do governo, pensão alimentícia e um cedê do Zé Ramalho que ela quebrou na semana passada. Explicamos os procedimentos legais para ocorrência de agressão. Quando ele já estava querendo nos processar por omitir a "Mário do Penho", uma versão masculina da lei que ele jurava, pela sua coleção de dvds piratas, que existia, sua mulher chegou.
Era metade dele. Ou menos. Em latitude e longitude. Apavorado, o homem virou cata-vento outra vez, agora se justificado com ela, um desespero só. Dizendo que nós o abordamos do nada e queríamos prendê-lo. Ele nem queria conversar conosco. Ela virou fera e fez pose de Bruce Lee, só desistindo quando explicamos que não era nada daquilo. "Mentiu pra mim, Zé?", ela apertou os olhos o encarando. Pronto, vai dar briga, pensamos.
Que nada. Saíram abraçados, os dois. Trocando bicotas. Ele repetindo, estava louco pra chegar em casa. Ver tevê. Claro que era a novela. Que dúvida!

Sábado, Maio 05, 2007

Café Forte

do Caderno Especial do Jornal Ibiá
MEU LUGAR EM MONTENEGRO
05/05/2007 - 134 anos de Montenegro


Diz a lenda que Drummond andou por Montenegro. E escreveu que no meio do caminho havia um Café, havia um Café no meio do caminho. No meio da cidade. Esse negócio de pedra surgiu depois. O Ciro, que ocupa a mesa um desde que suas tranças tinham cor, é que teria pedido ao poeta para não dar fama ao lugar. Gostava do sossego. Inútil. Afinal, quem disse ser privilégio de Paris ter Café que atravessa século? Que desfila políticos, pensadores, desocupados e coadjuvantes? Que gera filosofias e decisões, notícia quente e peixe frio? Lá é o centro. A bolsa de informações. Quem quer mudar os rumos da cidade, descobrir quem papou a Saranilda ou apostar cobra na cabeça, vai ao Café. 'O' Café.

Na verdade, o Café Comercial foi pano de fundo (e pano pra manga) em muitos capítulos de nossa História. Entre expressos, pingados e derivações inventadas na hora, teria sido ali que Mister peitou um vendedor argentino, confundindo 'gañar pesos' com chamar de gordo. Pobre das Malvinas e do General Videla. A CIA divulgou recentemente que, numa escavação entre bitucas, encontrou o rascunho do ataque às torres gêmeas num guardanapo do Café. Um ex-prefeito até tentou explicar, era apenas o seu projeto de pórtico para a cidade. Não colou. A CIA é a CIA. Não cai nessa de pórtico em Montenegro.

A nova loira do Tchan, o Projeto Cura (mais os curativos do projeto) e a compra do Christian pelo Inter _ depois pelo Grêmio, depois pelo Inter de novo _, afirma-se, decidiu-se ali. No Café. O único que arrasta consigo o artigo definido. 'O' Café. Se alguém fala, 'te encontro no Café', já disse tudo. Todos passam por ali. Certa vez, ele amanheceu fechado por causa de uma goteira. Foi pior que desligar tevê em vitrine de loja durante o jogo da seleção. Precisou polícia de choque. O Café é o Café. Candidato que não faz seu comercial _ no Comercial _, não ganha eleição. Quem jamais escreveu naqueles guardanapos não pode se dizer poeta. Revistas de fofoca revelaram que a Globo quer produzir um Big Brother todo no Café. Alemão não falta pra se inscrever. E uma das provas do líder seria abrir aqueles novos açucareiros, de tampa com segredo.

Contam que Germano Henke virou prefeito, e bairro, nas mesas do Café. A Coluna Prestes quase se dissolveu ao fazer uma parada para meia taça com leite e coxinha. O próprio Prestes só seguiu adiante por medo da Olga. Quando a Guerra Fria virou uma gelada, Gorbachev pediu ao Reagan um bom lugar para lhe dar sua Perestroika. O Pentágono não vacilou: 'The Coffee, of course!'. O Café. Onde as vertentes se cruzam, batem boca e saem abraçadas contando moedas. Onde Felipão tomou um pingado para saber se levava o Ronaldo à Copa da Alemanha. Tanto que aquela mecha no cabelo do craque não imitava o Cascão coisa nenhuma. Era uma homenagem ao Café. Aos folheados do Café, mais precisamente. De frango. O Oliver Kahn, claro, não gostou.

Vez em quando vou ali, respirar história (e o cigarro dos outros, é verdade). No local exato onde índios Ibiraiaras sentaram para comprar espelhos, pentes e outras tecnologias açorianas, bebendo algo escuro e quente para celebrar. Ali, criou-se o símbolo do intercâmbio e da diversidade cultural. Quando aportaram alemães, italianos e os buracos da Buarque de Macedo, ali já era ponto, definitivamente, comercial. E de café. Que, vale dizer, continua forte. Expresso ou pingado. Mesmo com esses açucareiros novos, de senha e manual em japonês. Café é no Café. Comercial. E o Senadinho é testemunha. De tudo.

Terça-feira, Abril 24, 2007

Sarau





- Valeu a pena?
Pausa. O Silvino encara, um a um, todos os que estão no bar. Cenho franzido, olhando por cima. Satisfeito por finalmente olhar assim. Por cima. Importante. Afinal, está no palco, empoleirado num banquinho quase maior que ele. O lábio inferior empurra o superior, que empina o nariz. Silêncio total.
Não. Quase total. Alguém funga (alguém sempre funga). Slurff! E insiste, slurff, slurff. Sem se afetar, Silvino balança a cabeça e abre um leve sorriso. O suficiente para que se perceba uma salsinha no canino direito.
- Tudo vale a pena...
Voz impostada. Suspira.
- Se...
Tinha caprichado nas sílabas tônicas. No 'se', a voz subitamente declina. Quase sussurra. Faz outra pausa. E se concentra apenas em Déia, que se encolhe atrás de um chope. Duas fungadas e um pigarro entendem, ó, tem clima. Murmúrios crescem. Vai jogar na cara dela, ah se vai! Alguém não se agüenta e estala os dedos, chamando o garçom. 'Bem gelada!', grita. Pssiu!, não é a final da copa! O Silvino nem aí. Nada o abala naquele instante. Aperta o olho. Endurece a face. Ensaia um esgar mitológico. Só se vê a franja de Déia acima da mesa. E escorregando. Ele balança a cabeça ainda com mais veemência, imitando o gesto da mãe quando o surpreendia cheirando as calcinhas de sua tia-avó. O nariz já forma um ângulo reto com telhado. Precisa ser enfático. Humilhar. Despedaçar. Pisar, matar, ressuscitar. E qualquer outro verbo ou metáfora que torne Déia a última das últimas.
Morde as sílabas, mastiga, faz gargarejo e solta. Uma por vez. Pesado, calmo, sentencioso.
- A al-ma...
- AAH!
Opa! Opa!, grita outro alguém. Alvoroço. O grito se repete atravessando Fernando Pessoa e ninguém entende onde a alma do poeta vai parar. Psst!, psiu!, xi!, pede a platéia, irritada. O Silvino leva um susto e quase cai do banquinho - que, mesmo sendo maior que ele, ainda assim é só um banquinho. Déia ressurge sobre a mesa, ainda apenas em meio rosto, cautelosa, querendo saber o que aconteceu. Será que alguém leu seus pensamentos e cortou a garganta - ou o pinto, seria melhor o pinto - daquele desgraçado?
O grito se repete, AH!, e se prolonga, AAAH! MÃNHÊEE! A platéia procura com os olhos a interferência que estraçalhou o clímax da poesia. Silvino tenta se recuperar, suando frio, equilibrando o corpo para não decretar de vez a morte do recital. Olha no fundo o bar. Já sabe quem foi.
O filho da Jô. Queria pastel. A mãe mandou esperar, ele insistiu, choramingou, esperneou. Queria, queria, queria. Ela irredutível, não!, ele, eu quero!, não!, quero!, não!, não!, quero!, quero! Beliscão e grito. Aquele grito. Agora, o eco e o sorriso amarelo da Jô, localizada por todos os olhares.
- Eu não tinha com quem deixar. - ela se explicou, aflita.
Cabeças balançando em desaprovação. O Silvino balançando os braços, querendo atenção, mas sem falar, não queria interromper a seqüência poética. O menino nem aí para a coreografia desesperada da mãe, dedos nos lábios, implorando silêncio pelo amor de deus. Queria pastel. Queria, queria, queria!
Silvino tenta se impor, esbravejando no microfone. Azar que repetisse.
- A ALMA! A ALMA!
Nada. Ninguém olha para ele. Nem a Déia, agora já sentada normalmente e pedindo outro chope. Atenta. Andava pensando em ser mãe, tipo assim, uma produção independente. Mas todas as criança eram daquele jeito? A platéia ouvia atentamente a Jô, palestrando ao filho sobre carboidratos, circulação sangüínea, males da fritura e porquê a Amazônia não pode ser internacionalizada. Prometendo chegar em casa e fazer uma saladinha bem gostosa. De chuchu.
Mais grito.
- Eu quero pastel!
E choro. Apavorada, a Jô tenta calar o filho até com guardanapo amassado. Silvino bufando, isso é coisa que se faça com Pessoa? Ultrajante, ultrajante! Seus néscios! O Décio ouve e manda ele calar a boca. Irritado, tenta descer do banquinho maior que ele, o pé comido de cupim não agüenta e o Silvino dá de nariz no palco em meio segundo. O estrondo repercute na caixa de som, gerando uma microfonia que faz a platéia levar as mãos aos ouvidos.
- Psst! - fizeram pra ele.
- A alma! A alma! - Silvino tentou dizer, enquanto se erguia com dificuldade, tentando localizar a Déia e fazer o olhar de humilhação ensaiado. O problema era a dor no nariz.
- Tudo vale a pena! - insistiu, dedo em riste. Voou uma garrafa de cerveja e ele desabou de vez.
- Dá pastel para o menino, Jô! - gritou alguém.
- Pode dar! Eu pago!
- Eu pago outro!
A Jô parou a explicação que já andava por gametas, haplóides, espermatozóides e a importância da camisinha. Ia dizer, ele não pode comer essas coisas, tem apenas cinco anos. O menino esperneou. Gritou mais ainda. Aplausos.
- Diz pra ele declamar!
- Diz, diz!
A Jô já ia dizer que não ia dizer coisa nenhuma, é só uma criança, pô, mal sabe música de rodinha. Mas quando se deu conta, o filho estava no palco, empoleirado sobre o corpo inerte do Silvino. E pedindo um pastel para cada verso dito como couvert artístico.
- Senão eu choro! - ameaçou.
- Paste! Pastel! - Gritou a platéia.
O menino pigarreou. Silvino se mexeu quase acordando, mas outra garrafa manteve-o prudentemente imóvel. Silêncio total. Quase total. A Jô mascava as unhas, desesperada, resmungando, pastel tem muita caloria, ele não pode comer! E calculou quantos pastéis dariam "batatinha quando nasce" ou "lá de trás daquele morro". Ele não iria conseguir. E um carboidratinho aqui, outro ali, o que é que tem?
Quase teve um tróço. Ouviu o filho dizer todos os quinze mil versos hexâmetros e os vinte e quatro cantos da Ilíada, de Homero. 'Óh!', fez a platéia, já na cólera da Aquiles. E por quatro horas ininterruptas, houve uma sucessão de 'óhs', suspiros, chamadas ao garçom e traques. Até que, rouco e com câimbras, o menino encerrou, recebendo a ovação da platéia eufórica.
Silvino, já reconciliado com Déia, estava em seu colo, entre tentativas de continuar o verso do Pessoa e curar as garrafadas na cabeça. O filho da Jô pediu que cessassem as palmas.
- Tá. Agora, meus pastéis! – e foi para a sua mesa.
Mais aplausos e vivas. Assovios. Então o garçom subiu ao palco e veio solene até o microfone. Pigarreou. Expectativa. 'Viva o improvável!', gritou alguém. Delírio. Que noite, que noite, resmungou um modernista ou coisa parecida. Dinheiro surgindo nas mãos da platéia. 'Pastel! Pastel! Pastel!'.
- Vocês... Todos!.. Vão para o céu!
Um coro de mais e mais 'óhs' tomou conta do bar. Uma nova garrafada desmaiou definitivamente o Silvino bem no instante em que ele lembrou que a alma não era pequena. Nem as garrafas que o acertaram.
O garçom encarou a platéia. Um por um. E parou na Jô.
- Mas aqui... Não servimos pastel.
Silêncio total.

Quarta-feira, Março 21, 2007

Esses Maus Alunos

Serju Mento não aprendeu nada, na escola. Nunca entendeu porque o quadrado da hipotenusa era igual à soma dos quadrados dos catetos, pois se o troço nem quadrado era, mas um triângulo. E jamais aceitou que exceção não se escrevesse com dois ésses ou até mais, se tem tanto assobio e se chama tanto a atenção. Pô, se chama atenção dá voto. Não pode ser comunzinho, assim. Quê? Se isso é certo ou errado? Depois se avalia, na CPI. Tudo tem jeito, tudo tem jeito. Jeito e jetom. Agora, só não dá é pra confiar assim, de cara, na palavra de um professor. Só por que os outros acreditam? Submissos! Por que eles lêem uma penca de livros e acham que sabem de tudo? Ele também lia Tio Patinhas, pombas. E horóscopo. E revista playboy. Professor fala e escreve bonito? Queria ver um ali, na tribuna. Ah, queria!
Enfim, o mundo é meio esquisito desde que se expulsou Adão e Eva do Paraíso sem ampla defesa, contraditório e um deputado dos Direitos Humanos para botar a culpa na polícia. Desde sempre, professor continuou sendo apenas professor e Serju Mento virou, digamos, um expert no marketing de possibilidades morais. Ou seja, se deu bem.

O professor? Ralé. Base da pirâmide social, com senadores, bancários, coronéis e sanguessugas confortavelmente sentados sobre ele, tomando água de coco e contando cédulas. Serju Mento no alto. Ele, que foi chamado na direção por colar numa prova de educação artística. Subiu na vida. Sua conduta pode ser até duvidosa, mas vence currículos com mestrados e doutorados e alcança bons cargos nos altos escalões dos poderes constituídos. E sorri, vitorioso. Tem explicação. Mágoa de criança é que nem verruga, aparece e fica na vida toda. Serju Mento, quando chegou ao poder, ainda tinha mágoa de suas professoras. Como tantos outros que dão os rumos do país, tirou notas vermelhas em História. Sempre. Taí a explicação. Dos rumos do país e da vingança contra os professores.

Ser professor brasileiro é como um rito que mistura autoflagelo voluntário com doses periódicas de masoquismo. Sacerdócio, heroísmo. É aturar desaforo de piá que não recebe educação em casa, quase tomar tapa na cara e aceitar calado para não ser denunciado como antipedagógico. É ouvir sempre os mesmos discursos de respeito e valorização em campanhas, que na prática oferecem esmolas no final do mês como um grande ganho. É assistir fitas sendo descerradas em prédios, novas cascas no ovo apodrecido da educação fingindo ser atitudes. Mas o recheio, o conteúdo, as valorizações pessoais, as motivações, as dialéticas humanas que precisam ser resolvidas no interior da nova escola inaugurada são sumariamente ignoradas. É se ver obrigado a aprovar aluno sem condição alguma apenas para melhorar o desempenho da matemática oficial pública. Ou, pior, não ter um pai assassino no seu encalço e nenhuma proteção policial, já que a segurança vai tão mal quanto a educação. É improvisar a todo instante giz, classe, material didático, currículos desvinculados e descolar voluntários na comunidade para incremento de uma dignidade escolar. É pagar, do próprio bolso, livros para a biblioteca. É ter que fazer jornada dupla ou tripla para poder ter uma vida minimamente decente. É fazer pós-graduação e mestrado e perder funções para quem fez curso de culinária por correspondência, mas é filho ou afilhado de Serju Mento. Enfim, é escolher ser Cristo, mesmo sabendo que a via-sacra e a cruz durarão mais de vinte anos.
As meninas de ontem queriam ser professoras. As de hoje, dançarinas de funk e mulher de traficante. Ou de político do mensalão, claro. As crianças de ontem brincavam de escolinha, as de hoje brincam de brigar e vender drogas, levar dinheiro no mole, pois parece que anda assim lá na escola mesmo, bem ali no pátio. Os professores de ontem impunham respeito, liam os clássicos, eram convidados para as rodas intelectuais e jamais deixavam um aluno sem resposta. Os de hoje precisam sobreviver, então caçam cursos rápidos, diplomas duvidosos, são formados e contratados às pressas, só lêem as cartas de cobrança e mal têm tempo para a novelinha. E só são convidados para chá comunitário em época de eleição.
Mas isso tudo, descobrimos, é porque deram poder ao recalcado do Serju Mento. Aliás, para muitos outros da família dos Ju Mento. Maus alunos, hoje eles dão risada, vingativos. Vez em quando oferecem um carguinho de confiança para um e outro professor, só para mostrar que podem. Quem mandam no cenário. Que eles, maus alunos, é que colocam os professores de castigo no milho uma vida inteira, se quiserem. Que sem os Ju Mento não há escola, pois eles é que têm grana e caneta. E que precisam de mais Ju Mentos para dominar o país, uma fábrica de Ju Mentos para consumirem seus produtos podres. O problema é que, com isto, há Ju Mentos até dando aula por aí. Podem acreditar. Conseguem, são indicados. No país dos maus alunos, até professores eles viram, para desvalorizar a classe. E provar que toda regra, no mínimo, deve ter pelo uma exceção. Nem que seja aquela com um monte de ésses. O importante é dar voto.

Segunda-feira, Março 12, 2007

Do que os Homens Precisam





Poisé, Delegado, essa nova lei aí... Sei não. O senhor precisa me ajudar. Anote aí, meu nome é Solasnino Palatinaycos Monha. É, nome complicado, sou filho de grego. Mas o pessoal da firma me apelidou de Sopa, pra facilitar. Uma sílaba de cada nome. Sopa. O senhor também pode me chamar de Sopa. Só não esqueça o sobrenome. Sopa Monha, anote aí.
O senhor precisa me ajudar. Conhece a minha mulher? Nem queira. Quase um e noventa. Cento e trinta quilos. Perto dela, o Maguila é uma lagartixa debutante. Precisa ver o olho. Eu é que sei. Quando me olha daquele jeito, deu. Vou levar porrada. Ela é uma fera, doutor. Qualquer coisinha baixa o rolo. Pobre de mim. A mão é uma raquete, o senhor precisa ver. Ontem, só porque troquei de canal na hora da novela, me embaralhou todos os ossos das costelas. Só vendo. Melhor, sentindo. Mas a lei não fala em marido que apanha da mulher, então? Tsc-tsc. Pobres de nós. Sim, porque não sou só eu. Tem muito tipo aí que, na rua, é todo grito e pose. Chega em casa, só falta miar embaixo da cama pra não levar vassourada. Eu é que sei. Tenho um amigo juiz de futebol. Em campo, peitava até o Geraldão. O senhor lembra do Geraldão? Poisé, ele peitava o Geraldão, com todo aquele tamanho. Mas a baixinha dele, essa ele não conseguia encarar. Quem dava cartão vermelho em casa era ela. Só vendo. E agora essa lei. Só protege as mulheres. Tsc-tsc. Pobres de nós, Delegado. E o senhor precisa me ajudar. Um homem vítima da violência doméstica. Anote aí, meu nome é Sopa. Sopa Monha.
É o meu segundo casamento, doutor. Não, da primeira mulher eu não apanhava. Em compensação, ela me tirou até o que eu não tinha. Gastava o meu salário inteiro e até mais. Minha vida era um oceano de carnê e prestação. Roupa, jóia, perfume, quinquilharias. Até um carro ela comprou, o senhor acredita? E eu indo pra firma de ônibus. Entrei em SPC, Serasa e o escambau. Pedi adiantamento até do próximo ano. Separei. Aí o juiz me mandou pagar pensão. Pô! Mais conta? Atrasei e caí na cadeia. Pode conferir, preso duas vezes. É, logo eu. Sopa, Sopa Monha. Pô, mas eu só atrasava a pensão porque ainda estava liquidando as contas dela. Tentei explicar. Meu advogado também. Não adiantou, o juiz mandou me prender outra vez e ainda aumentou o desconto da pensão. Sacanagem. Se eu roubasse da previdência, não ia preso. Ainda tô devendo pensão. E agora tô devendo pro advogado também. O senhor precisa me ajudar, doutor. Anote aí, sou o Sopa. Sopa Monha.
Não, não pulei direto dessa sanguessuga pra minha Maguila de hoje. Teve um namoro no meio. Guria nova. Um desastre, doutor. Ela me deixava de cabeça virada. Aconteceu. Tina um quê que me deixava doido. O senhor sabe, aquele quê? Mal conseguia trabalhar. Mentia o tempo todo. Quando não mentia, contava pela metade. Eu acreditava. Fazia e acontecia, eu aceitava. Vivia de cochicho com a melhor amiga, tinha mais ex-namorado que deputado em CPI e só usava roupa curtinha. Peito de fora, coxa de fora, tudo de fora. E eu ficando louco, ao lado dela. Dureza. Mas consegui me libertar. Foi aí que conheci minha mulher atual. Sim, porque já era pior que o Maguila naquele tempo. Mas pensei, pelo menos não vou me incomodar. Deu no que deu. Não posso nem dormir na poltrona vendo o vídeo-tape do futebol, agora. Levo porrada. Ô vida. O senhor precisa me ajudar, doutor. Sou vítima das mulheres. Da violência doméstica. Anote aí, meu nome é Sopa. Sopa Monha. Vamos mudar essa lei.
Ai meu deus, é ela! Lá, do outro lado da rua, Delegado. Sim, aquilo é uma mulher. A minha mulher. E se me pega aqui, tô morto. Ih, atravessou. Me ferrei. O senhor nem vai poder fazer nada, a lei é só pra elas. Me ajuda, doutor. Onde fica a porta dos fundos? Hein? Como assim, eu preciso é de um homem? Ah, um segurança. Vou pensar no assunto. Mas o senhor precisa me ajudar. Ajudar a todos nós, homens. Vamos fazer um movimento nacional. Contra a tampa do vaso, pela liberdade gástrica na cama e pelo esporte na tevê, ainda que seja vídeo-tape! Vamos boicotar bancos de esperma, deixar de raspar a barba só pra assar o rosto delas. Anote aí, doutor. Se precisar, chame o Sopa. Uma vítima do sistema. Sopa, Sopa Monha. Anote aí. Ai, meu deus, olha ela entrando! Me ajuda, doutor. Obrigado. Opa, que porta é esta? Hein? Como assim, tô preso?

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Crônicas de Verão - III

Marx Não Foi à Praia
(direto de Torres)




O Astrogildo estava certo. Socialismo só saiu de moda porque foi concebido no lugar errado. Ele existe. E não é utópico, é real. Não, não sou estou fumando unzinho no diretório acadêmico nem sou um assessor psicopata do Chavez. Eu vi. Todos vêem. Os teóricos é que estavam muito longe para enxergá-lo. Marx? Vivia numa Alemanha fria demais, ávida por declarar guerras ao mundo apenas para esquentar os ossos. Seus seguidores? Russos. Pior ainda. Imersos sob toneladas de neve, sua concepção de humanidade era a mesma de um sorvete de flocos. Distante, insosso e quase incolor. Não, nenhum preconceito contra o sorvete de flocos. Mas alguém consegue lembrar de uma cena de filme erótico com sorvete, creme, picolé anatômico ou o que quer que seja, desse sabor? Sem chance. Vivesse em nosso litoral, sob raios de sol, bundas e caipiroscas, o velho Karl teria feito a barba, passado uma parafina na juba e, ao som do mar e à luz do céu profundo (jabá, Nelson Mota, jabá!), teria escrito O Capital totalmente diferente. Sabor pimenta ou chocolate. Com outras inspirações, outro clima e, fundamentalmente, outra cabeça. Seria apenas uma questão de protetor solar.

Discursos, manifestos e revoluções teriam outro foco. O proletariado estaria, no máximo, preocupado em garantir suas férias. Letras de rock, camisetas, discussões em mesa de bar, jornais alternativos e cabeludos teriam outras vertentes, menos bélicas. Ao invés de 'companheiro' e 'a luta continua', simplesmente 'iurru!', que já resume tudo, trazendo em si toda uma perspectiva futura, uma definição sócio-filosófica que, aos incautos, parecerá um som primitivo. É mais, é mais. No lugar da foice e martelo, caniço e guarda-sol. Ou baldinho de areia e casca de siri, ainda que politicamente incorreto para ambientalistas e outras vertentes sexuais sem partido. Aliás, a própria revolução sexual, 1968 e a ditadura militar estariam descartadas, desnecessárias. Golpes, armas atômicas e filmes de espionagem teriam sido evitados. Stalin, Fidel e outros, retratados por Hollywood como carrancudos antipáticos de boinas vermelhas, teriam a cara alegre do Kadu Moliterno, cremes no rosto, pranchas sob o sovaco e aquela eterna fisionomia transcendental de quem não sacou nada, aíãn. Nem precisaria sacar coisa nenhuma. O ruim, apenas, é que talvez não teríamos ouvido Geraldo Vandré e morrêssemos enfastiados de Bob Marley, Armandinho e assemelhados (tremendamente assemelhados, diga-se de passagem).


O socialismo esteve sempre ali. Nas mesmas ondas onde Cabral perdeu o pudor. Pouca roupa, pouco pano, lado a lado, sem jóias, prenomes e ostentações: eis o homo praius. Um ser absolutamente socialista. Igual. Nem aí. Quase indígena. Contente com seus minifúndios (microfúndios, em finais de semana) suficientes para um corpo esticado, uma esteira, cadeira e guarda-sol. Os superatletas (caminhantes, surfistas, pescadores de peixe nenhum e frescoboleiros) não têm supersalários. O milho-verde e a caipirinha são iguais para todos e não há refeitórios excludentes de classes. Todos comem na mesma areia. Sujam a mesma areia. Caem no mesmo buraco ao repuxo e são salvos pelos mesmos salva-vidas, que por sorte raramente têm bigodes. O empresário não é empresário, nem quer lembrar que é, resume-se a um veranista. Como o pedreiro, na barraca ao lado. E ambos olham, feito bobos, bobos absolutamente iguais, os aviões com faixas publicitárias e as asas deltas, deixando as crianças brincarem à vontade, juntas, sem fazer cara torta ou passar a tesoura nas bolas que invadem o seu território a todo instante. Paz e amor. Adolescentes namoram apenas por serem adolescentes. Espinhas e cremes, favelas e zona sul. Iguais.
Tudo isto, pensa-se, vem da nudez. Homo despidus. Vulnerável, assume sua essência. Garante-se por ela. Joga longe as suas vestes físicas e sociais, impostas o ano todo. Le Egalité! Nelson Rodrigues que me perdoe, mas toda nudez deve ser glorificada. O ser humano é capaz, sim!, de liberté, egalité, fraternité. De conviver sem distinção de classes. Pena que só na praia e durante um quarto de ano. Enquanto isso, eu construo outro castelo de areia com meu filho, sem me preocupar com IPTU, plano diretor e taxas imobiliárias. Sem precisar grades, alarmes e despertar a fúria do pessoal do movimento sem-teto. Na praia todos tem direito ao teto. E às tetas (o que não implica em cargos públicos imorais).


Queria mostrar ao mundo. A queda do bloco socialista, a desvalorização do baseadinho nos DCE e os estranhos discursos neo-liberais do Lula nada tem a ver com a derrocada do leste europeu, com a mutante moda ideológica da juventude ou com o quê exatamente andou mascando o Evo Morales ontem pela manhã. Nem com a possível doença venérea do Fidel. As causas são outras. Mais antigas.

Definitivamente Marx, pobre Marx, é que usava roupas demais.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Crônicas de Verão - II




Homo Praius


Cientistas americanos _ eles, sempre buscando explicações inúteis para aparecer no Fantástico _ estudaram o fenômeno comportamental dos homens na praia. A pesquisa, coordenada pela CIA (Centro da Imbecilidade Americana), levou mais de dez anos e gastou, em dólares, cerca de dois bi. E só não recebeu mais recursos mas porque outro Bi, o Bush, precisou comprar mais armas e invadir um país qualquer do Oriente. Claro, que produzisse em larga escala fanáticos barbudos com nomes de duplo sentido e, fundamentalmente, petróleo.
As descobertas foram interessantes para quem não se interessa por nada que preste.
Fator Freudiano:
O homo praius, ao vestir apenas sungas, libera sua libido, agora protegida apenas por um pano, não dois ou mais. Assim, contrariando Darwin ao dizer que o homem não vem do macaco, mas fundamentalmente da cobra (explicação do fetiche animal que cada macho humano tem por si mesmo, narcisista de carteirinha e dono do pedaço _ maior pedaço é dele sempre), as células de racionalidade neurológica, já confusas, perdem espaço e impelem todos os sentidos atrás de bundas passantes, ignorando as frágeis, porém sempre desconfortáveis, ondas de valores morais e conjugais. Principalmente, a noção do ridículo.
Fator Edipiano Platônico:
Saudoso do calor materno do colo, ao despir cada mulher que por ele passa e que tenha seios fartos em seu cotidiano urbanóide, o homo praius entre em choque quando assiste a um desfile mamóide exuberante a cada segundo na areia. Concretização do sonho, até porque carnaval é uma vez ao ano e consegue enjoar, traumaticamente. Assim, ultrapassada a ponte que liga o imaginário ao palpável, o homem, perdido, cai de boca, ou abre a boca pra dizer besteira. Nestes casos, é comum perde um dente. Ou mais.
Fator Paraíso Libera-geral:
Farto do regramento asfixiante urbanóide, o homo praius vê todo mundo quase peladão e, entorpecido por sua naturalidade primata alcansável, faz um corte em 99% dos artigos de todos os códigos. Principalmente no penal e de trânsito, afinal, se até os brigadianos andam de sandália e bermuda, tá tudo dominado. Só acaba preservando alguns artigos do código civil, instintivamente, em nome da preservação de sua região