Marx não foi à Praia
crônicas de humor - Oscar Bessi Filho
dia 03/10 - Feira do Livro de Montenegro
19h na Estação da Cultura


Jornal Ibiá, 27/08/09.
Processar se tornou um bom negócio. E uma arma. Sujeito está em casa, cansado do Leandro Utzig na tevê, decide: está na hora de ganhar um dinheiro fácil. Então processa. Quem o chamou pelo apelido, o vizinho que confirmou seu nome pro carteiro, o cão que fez xixi no jardim ou todo o time do Internacional enquanto consumidor. Fácil. Há, também, quem precise ameaçar, afastar, tentar encobrir ou fazer calar, aí esbraveja, eu processo! Não me conserto e não encaro, mas processo. Virou moda. Assim como repassar culpa. Outra moda. A praça está destruída? Coisa dos pombos. Ah, nem os pombos iam mais lá? Então foram as toupeiras. As toupeiras vez em quando invadem as praças. E destróem pombo, praça, tudo. Se não cuidar, acabam com a cidade inteira. Toupeiras são terríveis!
Não adianta. A humanidade é paranoica. Ou hipocondríaca. Ou muito esperta, nalguns casos. Mas só nalguns casos. Que tirar proveito de tudo, ô, não é para qualquer mortal. Tem que ter talento. Praticar isto diariamente, feito exercício físico. Assim são os ladrões. Os corruptos. Os vendedores de terreno no céu e os roteiristas de novela. Vivem disso. Aliás, li a manchete de um jornal, trinta anos atrás. Movimento declara guerra à corrupção no Brasil. Ah. Deve ter sido uma guerra injusta, pelo jeito que a coisa anda. Os adversários devem ter usado armas químicas, ou biológicas. Ou psicológicas. Só sei que se deram bem. Trinta anos e aqui estamos. Desse jeito. Em 1979, lembro, eu era uma criança feliz. Cheguei em Montenegro, meu time foi campeão nacional e o General Figueiredo era apenas um senhor simpático que andava a cavalo. Eu acreditava em disco-voador e que o Monstro do Lago Ness existia. Guerra contra a corrupção? Não lembro. Acho que não dei bola. Afinal, para histórias da carochinha eu já estava bem grandinho.
(na foto acima, a Professora Izabel, numa matéria que o jornal fez sobre os 100 anos da Estação)
Dia desses, reencontrei uma professora muito especial. Maria Izabel Funk Nonemacher. Ela é a culpada de, hoje, eu escrever assim. Insistentemente. E tudo começou num embate. Não que eu fosse um mau aluno, mas era dos que sentam no fundo da sala. Sabe como é. Um dia matei aula para jogar bola. Havia uma redação para entregar e a deixei com um colega. Meu erro. Izabel leu e até gostou. Mas me deu zero.
Zero! E meu time ainda perdeu o jogo. Na aula seguinte, implorei para que ela acreditasse que a redação era minha. Izabel julgava que eu tinha dado para alguém fazer. Simples: eu era um aluno do fundão. Que matava aula para jogar bola. Desarmado, a desafiei: redigiria um texto ali, na sua frente, e o faria melhor que o outro. Para meu desespero, ela aceitou. Suei frio, tremi, tive dor de barriga. Mas fiz. E ela, ufa!, gostou.
Virou uma amiga, espécie de irmã mais velha no São João. Na construção literária, apoiou, ensinou estilos, lapidou textos, encurtou frases e dispensou palavras. Inscreveu-me em concursos - num fui premiado, noutro venceu um texto que ela descobriu ser plágio do Sabino. Pegou meu primeiro poema, "A Menina da Janela", puro romantismo juvenil, e disse que até estava bom. Mas não precisava enfiar panelas e cadelas banguelas nos versos só para rimar com o título. Anos depois, no meu primeiro prêmio literário, lembrei dela. A Izabel. Que chegou até a me dar a dica: um novo jornal abriria na cidade, quem sabe eu não tentava um emprego, já que queria cursar jornalismo e gostava de escrever. A vida me levou para outro lado. Porém, aqui estou, escrevendo justamente onde ela cogitou me ver um dia. Profética, a Mestra. Que disse ao aluno do fundão que ninguém precisa parecer nada. Tem é que, de fato, ser.
Foram milhares de alunos e talvez ela nem lembre nada disso. Mas foi muito bom reencontrá-la. Fiquei meio emotivo nesta coluna e vou remediar me torturando com o teipe do Inter na final da semana passada. Pior é revisar a coluna mil vezes. Vai que ela leia. E, definitivamente, se frustre com seu trabalho. Ou uma manifestação de leitores que me odeiam acampe no seu pátio, julgando-a culpada. E é. Definitivamente, ela é a maior culpada.