Domingo, Julho 12, 2009

A Professora Izabel

Jornal Ibiá, coluna semanal de 09/07/2009.

(na foto acima, a Professora Izabel, numa matéria que o jornal fez sobre os 100 anos da Estação)

Dia desses, reencontrei uma professora muito especial. Maria Izabel Funk Nonemacher. Ela é a culpada de, hoje, eu escrever assim. Insistentemente. E tudo começou num embate. Não que eu fosse um mau aluno, mas era dos que sentam no fundo da sala. Sabe como é. Um dia matei aula para jogar bola. Havia uma redação para entregar e a deixei com um colega. Meu erro. Izabel leu e até gostou. Mas me deu zero.

Zero! E meu time ainda perdeu o jogo. Na aula seguinte, implorei para que ela acreditasse que a redação era minha. Izabel julgava que eu tinha dado para alguém fazer. Simples: eu era um aluno do fundão. Que matava aula para jogar bola. Desarmado, a desafiei: redigiria um texto ali, na sua frente, e o faria melhor que o outro. Para meu desespero, ela aceitou. Suei frio, tremi, tive dor de barriga. Mas fiz. E ela, ufa!, gostou.

Virou uma amiga, espécie de irmã mais velha no São João. Na construção literária, apoiou, ensinou estilos, lapidou textos, encurtou frases e dispensou palavras. Inscreveu-me em concursos - num fui premiado, noutro venceu um texto que ela descobriu ser plágio do Sabino. Pegou meu primeiro poema, "A Menina da Janela", puro romantismo juvenil, e disse que até estava bom. Mas não precisava enfiar panelas e cadelas banguelas nos versos só para rimar com o título. Anos depois, no meu primeiro prêmio literário, lembrei dela. A Izabel. Que chegou até a me dar a dica: um novo jornal abriria na cidade, quem sabe eu não tentava um emprego, já que queria cursar jornalismo e gostava de escrever. A vida me levou para outro lado. Porém, aqui estou, escrevendo justamente onde ela cogitou me ver um dia. Profética, a Mestra. Que disse ao aluno do fundão que ninguém precisa parecer nada. Tem é que, de fato, ser.

Foram milhares de alunos e talvez ela nem lembre nada disso. Mas foi muito bom reencontrá-la. Fiquei meio emotivo nesta coluna e vou remediar me torturando com o teipe do Inter na final da semana passada. Pior é revisar a coluna mil vezes. Vai que ela leia. E, definitivamente, se frustre com seu trabalho. Ou uma manifestação de leitores que me odeiam acampe no seu pátio, julgando-a culpada. E é. Definitivamente, ela é a maior culpada.




Duas lembranças

Jornal Ibiá, coluna semanal de quinta-feira, 02/07/2009



(a charge acima nos faz pensar no tipo de esquerda que temos hoje em nosso país. Caricata, oportunista ou apenas estratégica?)


Na última semana, tive uma lembrança boa e outra ruim dos anos 80. Ruim foi ouvir do presidente - justo quem era a esperança juvenil de democracia, justiça social e aquilo tudo que a gente imprimia em panfletos estudantis, contra as ditaduras econômica e cultural deste país - que nossa polícia não presta. Só entra em vila pra bater. E prender negros. Caramba! Que discurso vencido! Cadê a assessoria pra lhe contar o que acontece no Brasil?

Concordo, Lula é um presidente melhor que muitos outros. Também, o parâmetro é medíocre. Comparar Maxi Lopez com o ataque do Aimoré não tem graça. Quero ver o seu máximo. O problema, de certos tipos, é falar com facilidade do que não sabem. Talvez porque nunca chegam perto da realidade. Nem querem saber dela. Ele, e outros aí, das mais variadas siglas, precisam aulas de polícia comunitária. As que nós temos há anos. Visitar trabalhos feitos por policiais civis e militares por este país afora, saber resultados.

Só no RS, somos meio milhão de ativos, inativos e familiares. Muitos mutilados ou chorando ausências. Há quem entra desarmado na perifeira por seu trabalho social. Gente que prende quem precisa e cujos filhos merecem, pelo menos, respeito. Ainda mais do presidente. Todo setor público tem problemas. Inclusive as polícias. Mas o problema maior está bem mais acima. E é feio generalizar. E policiais, como professores e profissionais da saúde, estão justamente onde os políticos são mais ausentes.

Noutro dia, ouvi o mesmo tipo de bobagem de um caricato político local. Um sujeito que, após uma vida na direita (até na ditadura), de repente acordou esquerda. E radical. Com meia dúzia de discursos tão enrolados quanto exibicionistas e confusos. Veio defender traficantes de um bairro cujos moradores de bem - a maioria - agradecem todos os dias nossas ações. Claro, ele só vai àquela comunidade pra plantar palanque futuro, nem sabe o que acontece. Nunca pisou na lama com um policial e quer dar pitaco. Mas a comunidade vê. E sabe diferenciar.

Gente assim perde o respeito. E o amigo. Mais um pouco, ganham ferrenhos cabos ANTIELEITORAIS.

Ah, a boa lembrança? Conto semana que vem.

Sábado, Junho 27, 2009

Lula, PSol e outros mentirosos

Talvez tenha sido umas das manifestações que mais tenha me deixado triste, nos últimos 20 anos. Tempo em que me vi trabalhando como policial neste país combalido. Eu, que em 1989 acreditava piamente numa revolução social e econômica e me pintava de Lulalá, brilha uma estrela, e coisa e tal. Que fui ameaçado de não ser aceito, depois de ser expulso, depois acabei preso mesmo, por ser de esquerda dentro do quartel. Hoje, não passei um minuto deste dia que não ficasse me arrependendo de tudo. De tudo mesmo. De ter entrado na atividade política adolescente, ainda numa esquerda radical contra a ditadura - o MR-8. Que depois virou Quércia, nada a ver, mas na origem era tudo de bom. De ter feito e escrito panfletos mil. De ter entrado na política, há pouco tempo, depois te ter largado tudo isto de mão, agora como candidato, defendendo siglas que eu nem reconhecia mais. Ah!

Lula, ontem, ao generalizar, deve ter perdido o voto de todos os policiais e familiares destes. Das crianças cujo pai veste uma farda mal paga, mas é alvo de todos os vizinhos taficantes e assaltantes de sua vila. Dos colegas de aula. De todos os que anseiam por segurança, que têm medo de sair às ruas, que tem medo da escola, medo do mundo, medo da vida.
E, olha, eu até entendo o presidente. Entendo a sua pisada de bola. Até Pelé já pisou na bola. E a polícia brasileira tem problemas, sabemos que têm. Há criminosos, molóides, puxa-sacos de políticos. Há te tudo. Inclusive ótimos policiais (maioria). E não perdôo. Generalizar? Condenar todo mundo? Todas as instituições para dizer que a sua fórmula, agora sim, é mágica? Se há alguém que não pode errar, ao falar em público, é o presidente de um país. É o único sujeito que não pode generalizar. Pois em qualquer generazilação, ele está junto! Se o caos começa no serviço público, ele está junto! O Presidente, a Governadora, o Prefeito, o escambau! Todo mundo está junto, desde que se propês a fazer serviço público, e não o fez!
Vou começar pelo chavão. Coisa mais batida, essa. Racismo em vila, polícia que só bate, que só atira. Por favor! Então, neste 07 anos, todo o trabalho da Senasp foi em vão? Os mesmos chavões ainda precisam ser repetidos? Ah, vamos às vilas, por favor. Só para um almofadinha, ou nerd, ou covarde assumido, que não tem coragem de ver de perto como funciona o trabalho policial. Quem dessas caras vai ás vilas sem seguranã? Quem vais ás vilas resovler problemas em meio ao caos? Quem pisa na merda, na lama? Lula não sabe o que é ser policial. Os petistas em geral não sabem, e eu sei por ter sido um quase petista. A esquerda não sabe e eu sei por ser esuqerda. E os policiais que se aproximam deles, ah, querem cargo, contracheque, pistolão do aprtido, e não botar a cara a tapa. Não enfiar o pé na lama. Ssocialismo na prática? Pfff. Vi, na campanha, gente sem dar condições de trabalho ao grupo de trabalhadores, mas cobrando rendimento. E se dizendo esquerda, socialistas, a salvação da humanidade. Como me disse o Olívio Dutra, num almoço, ao pé do ouvido "Essa gente faz cada coisa, cada conchavo e aliança, que me dá um calafrio".
Então. O socialismo não é isto. Está distante. O socialismo era para ser mais ordeiro que o capitalismo selvagem, porque a desordem é que dá lucro. Insegurança é lucro. Violência, seca no nordeste, tudo é lucro. Agora, Marx não disse que seria necessário socializar o capital e capitalizar o socialismo? Quem leu, desses pseudo-esquerdas que então por aí? Se há pessoas lucrando com a violência e exclusão, com a baderna e impunidade, por favor, estes caras não são socialistas! Está na cara! Se eles fazem o jogo do lucro e da condenação à miséria, será que são socialistas? Agora, discurso sempre é bom. Fala o que ser quer e se generaliza.
Um caricato político montenegrino, de quem já fui amigo e admirador, mas depois que se enfiou na política virou um caco - o legítimo caco reconhecido e comentado por todos - fez o mesmo gesto do Presidente. Isto que ele se diz esquerda radical, anti-Lula, porém faz a mesma coisa. Mesmíssima. Mas é praxe dele, já fez a mesma coisa que os da extrema direita, da ditadura. Montando na grana, foi numa vila da cidade botar banca de socialista radical. Como se o povo não soubesse quem ele é! Quem não tem chão, nem como pagar as contas, eu até entendo. Mas rico? Financiando crime? É muita safadeza! Depois vem com discurso de moralizador? Fora o "incentivo" que dá às artes da perifeira. óh! Baita incentivo! Ele rico - ou sua riqueza é contestável? - recebeu alta grana da prefeitura para fazer seu trabalho artístico. Opa! Por que não fez projeto pra gurizada da periferia? Ah, porque não era político e agora é? Quem quis fazer um dia, fez, que não fez, não será depois que fará. O povo sabe acompanhar as trajetórias. A moral acompanha o sujeito quando nasce. Se foi safado, não é camiseta de partido que o tornará herói, pois assim que meter a mão na cumbuca, cai tudo no seu bolso. Ou seja, quando ele era direita (esse cara foi Arena e o que mais apareceu na frente), ah, aí pensava diferente. Agora mudou. Acordou socialista. De repente. De Arena, sustentador da ditadura, a anti-Lula. Uau! Que mudança! O que faz mudar um sujeito quando a grana cai mais fácil no bolso?
Ah.... Ainda bem que o povo entende. E os próprios guris do hip-hop deixaram bem claro que sabiam quem era o cara, no que gastava a grana, quem ele financiava e etc. Então, esse cara montenegrino tem o mesmo perfil do Lula. Esse pré-candidato a sei-lá-que, em Montenegro, abraçou dois traficantes de uma vila e veio reclamar da ação policial, enquanto moradores antigos estavam nos agradecendo. Depois se perdeu, fez teatro, mas não ficou lá. Eu fiquei. Fardado, sozinho, no meio da vila. Hip-hop e tudo rolando. Isolei, fiz pista de skate pros guris. Onde estava o político do PSol? Sumiu? Ficou com medinho?
E o Lula? O policial - eu - estava batendo nos pretos? Nos pobres? Dando tiro? Seu partido foi governo em Alvorada, uma cidade complicada. Pergunte aos gerentes municipais da época se era isto que a polícia fazia por lá. Tente pesquisar o que se faz por aqui e em diversos cantos deste país achincalhado. Por isto o negócio é asqueroso. Por todos os lados. E, daqui pra frente, quero manter distância. Lula, perdeste meu voto. PSol, há muito tempo, o meu respeito, pois é a intempestividade e a falta de conhecimento que os rege. Para sempre. Então, pobres de nós, nada nos sobra fora um milagre nacional.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Pra quê cinto?

coluna semanal, Jornal Ibiá
edição de quinta-feira, 25 de junho de 2009.

Estou quase me convencendo. A maioria deve ter razão. Eu estou errado, os especialistas em trânsito, os patrulheiros rodoviários, os legisladores. Os professores. Todos errados. Cinto de segurança não pode ser bom. Se a maioria não usa e o ignora em seus carros, devem estar certos. Os que o encaram, sei lá, como um enfeite, tipo bolinha contra estresse, chaveiro de porta, guardanapo diferente para limpar o nariz ou coisa que a valha. Parei no centro dia desses apenas para observar. A cada dez carros, em média oito passaram sem cinto. Se tivesse um talão de multas na hora faltaria papel. Mas eu estava de folga. De viatura não tem graça, o pessoal vê de longe, se ajeita, breca o carro no meio da rua e coloca o cinto às presas. Aquela coisa.

Talvez o cinto de segurança seja só para isto mesmo, um policial ver. Tipo chamada para aluno Matão: responde e cai fora, basta fazer de conta que esteve em aula. Aprender é secundário. Impressionante. Talvez, nós, policiais, estejamos impressionados com os acidentes com que nos deparamos. Adultos e crianças mutilados, carros destroçados, famílias destruídas. Nada a ver. Tudo ilusão nossa. Cinto de segurança não faz falta, é o povo motorizado quem diz.

Uma estatística mostra que dois terços das vítimas de acidentes não usavam cinto. A maioria em veículos de passeio, no banco traseiro do carro, a mais de 60 km/h. Grande parte das crianças vitimadas, por outro lado, estavam no banco dianteiro. Com menos de nove anos e sofrendo traumatismo craniano. Um pecado. Agora, em alta velocidade, os casos mais comuns são os de capotamento. Aí, nem cinto adianta.

Então, se a maioria não quer saber de cinto, devem estar corretos. Como o guarda-chuva também não é necessário quando o tempo fica ruim e desaba aquele aguaceiro. Sujeito está na chuva, é para se molhar. Casaco contra o frio? Blusão, cachecol, poncho? Bobagem. Nada de se proteger. A moda é assumir os riscos. Enfrentar a vida. Nem que ela termine ali adiante. Ou os hospitais superlotem e quem precise fique sem atendimento. É de refletir. Afinal, somos educados demais. Longe de mim pensar que a maioria está errada.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Sobre o Cruzeiro, e o Grêmio



Sei não. Noutros tempos eu seria bairrista, e torceria pelos gaúchos. Gosto de ver times do meu estado vencendo. Mesmo sendo colorado, torço - ou melhor, torcia - pelo Grêmio. Como torci muito pelo Brasil de Pelotas, Juventude, Caxias e quem mais se arriscasse em torneios nacionais. Infelizmente, nunca fui um torcedor que desse sorte. E pela saúde de nossos pequenos, cada vez mais se firmando como pequenos (nem o Ju, a tal terceira força, resiste mais), eu deixei de torcer para eles. E me concentrei no Internacional. Ainda mais depois que fomos campeões da América, do Mundo e da Dubai. Sempre vencendo times de categoria. Só que, sei lá, não tenho dado muita sorte ao meu time. Temos tomados gols de Ronaldos, Adrianos e outros reis momos do futebol. Deu. Acho que vou me pulverizar outra vez.
Bem, mas me perdi do assunto e vou retomar o ponto onde eu queria chegar. O Grêmio não merece vencer hoje. Não pelo time, nem pelo Autuori. Nem pela Coligay - acho o máximo da coragem assumir publicamente a condição de homossexual, ainda mais tornando a torcida mundialmente famosa, como na comemoração do trenzinho, ou coxada coletiva, ou avalanche, enfim, como queiram chamar aquela coisa desaforadamente gay que acontece no Olímpico. Mas é pelos gremistas. Caramba! Os caras foguetearam geral a cada gol do Falmengo no domingo. Foguetearam nos gols do Corínthians, e fogueteando pelos paulistas, quase tomaram um gol dos venezuelanos. Então, se o negócio é ser rival, que sejamos. Ainda que eu tenha sido gremista por quase quatro anos por causa de um tio que eu adorava. Acho que, na época, bebi a água poluída do Rio Caí, e meu cérebro ficou afetado por um tempo. Ou fui abduzido. Ou coisa pior.
De mais a mais, o Grêmio não tem time. Fora um e outro raçudo, como o Maxi Lopes, o resto é gente de pouca lida com a bola. Já o Cruzeiro está bem armado. Na minha lógica, dá goleada dos mineiros. Mas futebol é futebol. Tudo pode acontecer. Agora, só pelo fato do Cruzeiro ser um time brasileiro sem o defeito de ser carioca, paulista ou baiano, merece vencer. E tem estrutura para chegar na final e fazer bonito. Que esse papo de final antecipada é conversa. Tanto o Estudiantes quanto o Nacional têm bons times.
Então, que dê Cruzeiro, hoje. E bem dado. O ruim é ter que torcer para um time de azul, mas vá lá. Nem tudo na vida é perfeito. Ou vermelho.




Sexta-feira, Junho 19, 2009

Caixas Pretas

Jornal Ibiá, Montenegro. Edição de quinta-feira, 18 de junho de 2009.
Tribuna, página 04.
Coluna Semanal


Charge do cartunista braga - www.cartunistabraga.blogspot.com

Há invenções que, ao contrário do nosso último modelo de celular, são definitivas. A caixa preta, por exemplo. Que nem é preta, é laranja. Mas desde a década de 50 que o invento de David Warren tem ensinado companhias aéreas do mundo todo a salvar vidas. Só não se salva mais porque não se quer. Os humanos são desse jeito mesmo. Numas vezes relapsos, noutras mercantilistas, nem gostam tanto assim uns dos outros. Voar pode ser só mais um negócio, como tudo que nos rodeia. Violência ou fé, fome ou obesidade, sexo ou impotência. De tudo há quem tire algum. Até da feiúra incorrigível. E não conferir parafuso daqui, fio dali, ou não trocar aquela rebimboca da parafuseta, mais deteriorada que conta de senador, é normal. Até ocorrer a tragédia e se dizer, ah, na próxima a gente cuida. Na próxima. Agora não dá, compromete o lucro. De mais a mais, é para isso que existe caixa preta. Para ensinar e revelar. O que sempre se soube, mas finge que só então se descobre.

Falando nisso, espalhar umas caixas pretas por aí até que seria uma boa. Para que pudéssemos, pelo menos, entender. A gente até se esforça, mas tem coisa que não dá. Popularizar a caixa preta. Feito! Bolsa Caixa Preta para cada brasileiro. O Dunga desvendaria o que aconteceu com sua zaga, que nem o Egito entendeu muito bem como fez tanto gol. E se explicaria algo que Freud não conseguiu: essa fixação do Rubinho em ser o número dois. O que transforma um tropeço tosco e desengonçado do Ronaldo Fenômeno numa jogada de gênio para o Galvão? O que pensa a Mulher Melancia? Ela pensa? Só a caixa preta, para explicar. Esposas saberiam porque os maridos as trocam pelo futebol com os amigos. Eles, porque as mulheres sempre param o carro na preferencial.

Congresso? Não, lá não adianta caixa preta. Perda de tempo. Não há o que se possa entender. E alguém deles ainda superfaturaria as pobres caixas pretas, deixando-as vermelhas de vergonha. É. Caixa preta explica quase tudo. Quase. Como tanta verba para a gripe suína, quando a epidemia do crack mata muito mais e recebe quase nada. Ah. Aí, são outras caixas pretas. Só uns e outros para interpretar.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Rodízio na Cabeça

Jornal Ibiá, edição de quinta-feira, 04 de junho de 2009.

Nós, brasileiros, somos inteligentes demais. O berço da sabedoria humana. Filosofia grega, papiros de Alexandria, franceses com suas revoluções e biquinhos nos Cafés? Papo-furado. Nós é que somos os caras. A terra onde se plantando tudo dá, basta ter amigo na Comissão do Orçamento. Somos fenômenos. Nem todos gordos ou com esquisitices sexuais, mas fenômenos. Vemos o que ninguém vê. Metemos a mão onde ninguém imagina. Adoramos a Lacraia e a Tati Quebra-barraco. Temos cerveja sem álcool e outras descobertas fantásticas que, na verdade, a gente nunca entende ao certo para que servem. Mas adota. Como novela das oito. Enche a paciência, não diz nada com nada, mas nos prende. E nos faz esperar por mais, mesmo pressentindo que, ih, ali tem. É que confiamos no nosso taco. Na nossa inflação zero com preços que parecem quadruplicar na etiqueta. Mas só parecem. Pura inteligência brasileira.

E somos tão inteligentes que em breve precisaremos de um rodízio em nossos privilegiados neurônios. Os atuais devem estar cansados. De mais a mais, amamos rodízio. De pizza, então, nem se fala. No Congresso, na Assembléia, num palácio ou pátio qualquer, dê-lhe pizza. E rodízio. A nova paixão nacional depois do futebol, dinheiro fácil e retaguarda feminina. São Paulo descobriu o caos no trânsito. Construir, mudar? Para quê, se dava para fazer rodízio de placas? Muito inteligente. Agora é esse caos penitenciário. Tudo caindo. E cada vez mais crimes, mais violência, mais presos. Solução? Rodízio de presos. Bingo! Falta acertar o rodízio das vítimas. O cidadão veste determinada cor para mostrar que é dia de ser poupado. Outra para liberar os ataques da bandidagem. Assim vai. Ótimo. Talvez caiba, também, o rodízio de crimes. Uma espécie de cardápio ao cidadão. Segunda temos assalto ao meio-dia, terça tráfico com furto na sobremesa, nas quartas shows especiais para corruptos namorarem e petiscarem com suas verbas. Magnífico. Por que arrumar a caixa d’água que vaza, se podemos fazer rodízio nos baldes embaixo? Somos muito inteligentes. Só falta descobrir como se faz rodízio de futuro. Porque, confesso, eu quero outro.

Domingo, Maio 31, 2009

Carta ao Traficante

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 28 de maio de 2009.



Desprezado senhor. Venho, por meio desta, dar-lhe um conselho. Dizem que se conselho fosse bom a gente vendia. Ou traficava - no seu caso. Mas, se é verdade que quem avisa amigo é, não custa nada ouvir o inimigo mesmo. Afinal, quando o negócio aperta, qualquer saída é lucro. Menos continuar neste ramo. Aí é prejuízo. Na certa.

Alguns já perceberam que vender pedra virou pedra no sapato de muita gente. Que do pó ao pó não retornarás - pelo menos não tão cedo, que a cana é dura. E que erva boa é para chimarrão. O resto dá problema. Então, aceite meu conselho: mude de ramo. Desista. Dê uma de Sandy e Júnior e pare tudo. De repente. Isso de dinheiro fácil não compensa. O Maluf que o diga. Melhor ser um trabalhador normal, enfrentar SPC, Serasa e impostos de toda ordem. Com suor dá mais prazer, vai por mim. E não corre o risco de acordar com polícia derrubando a porta.

O negócio vai ficar cada vez mais difícil, acredite. Muita gente está de olho em vocês. Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil, Brigada, Conselho Tutelar, Montenegro contra o Crack, torcida do Renner. Uma comunidade inteira no rim de vocês. Se não der cadeia, é insuficiência renal certa. Pudera. Não se acaba com o filho dos outros à prestação e fica tudo por isso mesmo. Tudo tem seu troco.

De mais a mais, não é um negócio inteligente. Vender tudo escondido, desconfiado até do cliente, e nem pensar numa propagandinha no rádio, ou no jornal. Paga olheiros, mulas, capangas, vende de pouco em pouco e ainda é pago com coisas roubadas. Até calçola da avó já trocaram por droga. Não dá. Para fechar, cai em cana. E só de advogado gasta muitas vezes mais que o lucro do tráfico. Fora as outras despesas obrigatórias, na cadeia, tipo a sobrevivência da masculinidade. Que é dura. Vocês nem tem uma Associação Comercial de Traficantes para lhes defender. Ao contrário, um quer mais é que o outro se dane.

Pois é. Agora, se ser honesto não é tua praia mesmo, então vá para Brasília. Trafique umas passagens aéreas, na maciota. Aí não mata mais os filhos dos outros. Quer dizer, pelo menos não assim, tão diretamente.

Domingo, Maio 24, 2009

Futuro

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 21 de maio de 2009.



Fico pensando. Que espécie dominará o planeta no futuro? Claro, se o planeta chegar lá, no futuro. É bom saber. Para a gente se prevenir e levar o que dá, antes que o mundo acabe, ou a Receita Federal confisque. Para quem passaremos o bastão? Os contratos com empreiteiras, os relatórios das CPIs, as cotas de publicidade? Que não dá para entregar o mundo assim, de mão beijada. Afinal não foi fácil chegar até aqui. Ou alguém acha que é mole destruir a fauna e a flora, inventar o hambúrguer e invadir o Iraque? De Hitler ao cinema japonês, passando pela seleção argentina, muitos já tentaram acabar com a gente. Sobrevivemos. E queremos garantias. Os dinossauros, por exemplo, foram uns ingratos. Comeram o que puderam, se empanturraram e desapareceram. Pelo menos eles não poluíram a Terra. Nem construíram Brasília. Em compensação, deixaram só o que não prestava. Inclusive nós mesmos. E nem perguntaram se a gente queria assumir, se não cabia um governo de transição, por exemplo, dos babuínos, mais moderados. Ou dos burros, já que ia dar tudo nisso mesmo. Defendo, aliás, uma tese: a humanidade já se foi. A gente é que não viu. Homo sapiens? Já era. Essas criaturas que andam por aí, nada sapientes, depredando o que encontram e se matando, não podem ser humanos. Devem ter vindo de algum planeta de má índole. Tomaram conta das mentes, começando lá por cima, tipo fraude na previdência. E, aposto, estão disfarçados de pino invisível no banco dos carros. Já viram certos homens de carro, como se transformam? Mutantes agressivos. Tiranossauros rex, na versão que não come ninguém, mas se acha a fera. É isso, fomos dominados e ninguém nos avisou. Nem a NASA, nem o Protógenes. Deixamos de ser humanos. Por isso vamos deixar quase nada do planeta, fora umas verbas públicas bem escondidas e essa penca de vírus novo. Só não levo fé que nossos sucessores sejam as baratas. Elas são fortes, mas não a ponto de encarar certas sujeiras que inventamos. A tendência é que as moscas assumam. Sim, as moscas. Na verdade, já deixamos nosso planeta às moscas. Um que outro ainda não viu. Ou não quis ver.

A Mãe do Badanha

Jornal Ibiá, Edição de quinta-feira, 14 de maio de 2009.



Encontrei o Badanha no centro, acabrunhado. Lia um desses panfletos que, mancomunados com tickets de estacionamento e cocôs de passarinho, dedicam-se a aniquilar pára-brisas de carros. Sujeito puro, perdeu as espinhas da adolescência há algumas décadas, mas ainda crê em coisas como amor livre e Monstro do Lago Ness. E, claro, quer mudar o mundo. Nem que tenha que pedir CPI e entregá-lo aos ETs (ou ao presidente do Supremo, mas isso foi antes do Gilmar Mendes). Ele tem uma teoria para o caos: foi Deus dar uma descansada de um dia e os ratos tomaram conta. Imagine, então, se Ele tivesse sindicato. O Sindicriamundo. E entrasse em greve por férias, jornada semanal e licença-paternidade. Multiplicada, que ser de Pai de todos não deve ser sopa. Dá para imaginar Deus de folga? O planeta já teria explodido, a fauna desaparecido, o Celso Roth retornado. Até achei que o Badanha, ali. Não. Estava triste porque esquecera o dia das mães. Não adiantava mais comprar presente, nem visitá-la, ele disse. Opa! Como assim?

Acontece que ele é muito bonzinho, mas só lembra da mãe quando precisa. Não é o único. Olha o escândalo das passagens aéreas. O povo arcar com viagens de mulher de parlamentar, tudo bem. Às mães, que os colocaram no mundo (e lá fomos nós que os colocamos, elas não têm culpa de nada), nem pelota. É uma campanha universal contra a figura materna. Talvez visando a família, a escola, a ordem ou qualquer outra proteção contra o caos. Tem mãe que já precisa chamar a polícia para fazer o filho obedecer. Tem mãe tão novinha que nem sabe que é mãe, tem mãe jogando filho no lixo. Aí, deu. É o auge da crise de valores, pior que crise da bolsa e mais virulenta que gripe suína. Mãe é mãe. Mais que um simples dia, mais que um cartão colorido e tchau. Mãe é vida. Origem, essência, referência. Tem que saber o que é. Saber ter, saber ser. Muito mais que a atenção burocrática de meio dia e fim de papo. Um domingo não redime a humanidade. É tipo CPI. Peito estufado com voz carregada, depois chá de sumiço, qualquer um. Tem é que ir além. Muito além.